A mobilidade urbana inserida na rede: desafios de segurança para a luta pelo transporte


Recentemente, durante as Jornadas de Junho de 2013, e durante as lutas pelo transporte público e as mobilizações contra a Copa do Mundo em 2014, ficou patente o uso das redes sociais, contra a militância, por parte das forças de vigilância e repressão do Estado. As polícias fizeram uso não apenas de imagens captadas em manifestações (feitas tanto por policiais infiltrados, com o objetivo de identificar os manifestantes, quanto pelos próprios manifestantes e pela imprensa), nem apenas de grampos telefônicos etc. (com o objetivo de monitorar as atividades de militantes e manifestantes), mas também do monitoramente das postagens e, provavelmente, das conversas privadas de militantes e manifestantes nas redes sociais.

patch cords and network switchNo entanto, nos deparamos com uma situação ambígua: ao mesmo tempo em que somos monitorados, através das redes sociais, pelos órgãos de repressão do Estado, nós mesmos fornecemos, para empresas privadas que colaboram com tais órgãos, não apenas dados pessoais mas um verdadeiro dossiê sobre o nosso cotidiano. E não se trata de uma particularidade de militantes e manifestantes: trata-se, na verdade, de uma realidade compartilhada por todas as pessoas incluídas nessas redes de captação, veiculação e armazenamento de dados. Uma realidade compartilhada por todas as pessoas que, por assim dizer, “vivem na rede”.

No capitalismo contemporâneo, tais redes constituem (a) uma das condições gerais de operatividade do processo de trabalho, pois “conferem aos capitalistas o controle dos mecanismos de decisão e lhes permitem impor à força de trabalho os limites estritos em que pode expressar opiniões ou tomar decisões relativamente aos processos de fabricação (cf. João Bernardo, Economia dos conflitos sociais, São Paulo, Expressão Popular, 2009, p. 175)”, e (b) uma das condições gerais de operatividade do mercado, pois “permitem o estabelecimento de relações entre produtores e consumidores (cf. op. cit., p. 175)”. Praticamente todas as empresas já possuem as suas próprias redes, redes internas, pelas quais os capitalistas são capazes de monitorar e disciplinar a força de trabalho. Além do mais, tais redes, existindo também exteriormente às empresas, garantem um cruzamento de dados que garante, por sua vez, que cada empresa encontre, para si, um “mercado”: é por isso que somos constantemente bombardeados, no Facebook, por exemplo, por anúncios publicitários que correspondem às nossas buscas em ferramentas de pesquisa: o Google, por exemplo.

A tendência é que a totalidade das nossas atividades seja convertida em dados e registrada em alguma rede, inserida, por sua vez, noutras redes mais amplas, de modo que informações sobre nossa vida pessoal sejam cruzadas com outras informações, sendo este cruzamento utilizado para nos converter em consumidores e trabalhadores dóceis.

No que se refere à mobilidade urbana em particular, temos, hoje, diversos aplicativos, instalados nos nossos celulares e smartphones, que servem para monitorar as nossas trajetórias nos espaços urbanos. Aplicativos como o Waze e o Moovit servem não apenas para dizer aonde vamos mas também para nos localizar, com incrível precisão, e também para revelar os nossos hábitos, os locais que frequentamos, as rotas que utilizamos, uma série de dados que podem ser, muito facilmente, entregues para os órgãos de repressão do Estado, facilitando a nossa perseguição política e, sabe-se lá, a nossa captura e/ou eliminação física. Além do mais, têm surgido outros aplicativos, como o Tripda e o Lyft, pelos quais é possível pedir caronas, e o Easy Taxi, pelo qual é possível chamar um táxi. É a nossa mobilidade inserida na rede, a serviço dos capitalistas. Se estivermos sendo espionados, tudo isso pode ser utilizado contra nós. E fica tudo ainda mais complicado quando utilizamos cartões eletrônicos para pagar por tais serviços, o que dá aos capitalistas um conhecimento exato das nossas finanças.

network_cablesParece ser impossível escapar desse monitoramento constante, mas, mesmo assim, alguns cuidados são necessários. Se estamos dispostos a lutar contra o sistema, estando conscientes de que qualquer coisa será usada contra nós, nos tribunais ou extrajudicialmente, precisamos retirar o máximo de nossas vidas da rede, sobretudo no que se refere a questões de estratégia e de tática internas, e também no que se refere a questões relativas a procedimentos internos das organizações de que fazemos parte. Assim, literamente nos desligar da rede, quando estivermos saindo de casa para organizar a luta anticapitalista, faz-se indispensável. E, quando estivermos nos comunicando com os nossos companheiros, faz-se também indispensável utilizar uma comunicação segura, criptografada, utilizando meios de comunicação feitos por militantes e para militantes. Também precisamos conhecer melhor o espaço urbano em que vivemos, para não dependermos de serviços de localização como o Waze, que registram todo o nosso percurso. Usar dinheiro, ao invés de cartões eletrônicos, também diminui a possibilidade de sermos rastreados. Se utilizamos celulares ou smartphones que não podem ter as suas funções de localização desativadas, é melhor sair de casa sem eles ou adquirir celulares mais antigos, exclusivos para a militância, não dotados dessas funções.

É preciso, portanto, que façamos um grande esforço para nos adaptar a uma realidade nova, a tecnologias que não são politicamente neutras, porque são intimamente associadas às relações capitalistas de produção. É claro que as tecnologias podem ser relativamente “adaptadas” aos nossos objetivos, mas algumas delas, como os aplicativos citados acima, não são possíveis de adaptar. Os meios de comunicação segura, citados acima, por outro lado, são já “adaptados”. O capitalismo encontra-se, agora, num novo estágio, inaugurado pela chamada Terceira Revolução industrial, e precisamos aprender a como lutar contra ele nesse contexto.1591026

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