Vigilância no transporte: segurança pra quem?


No segundo semestre de 2014 foi lançado em Goiânia o sistema de monitoramento da segurança do transporte coletivo de atribuição da CST (Central de Segurança do Transporte). Este sistema logo de início instalou 640 câmeras em 160 ônibus da Viação Reunidas que operam na região leste da região metropolitana. Em parceria com a Secretaria de Segurança Pública as imagens são transmitidas em tempo real para o posto de segurança da RMTC que está instalado dentro do Copom (Comando de Operações da Polícia Militar).

O enorme empreendimento lançado com o argumento de proporcionar mais segurança no transporte coletivo de Goiânia deve ser problematizado. A segurança no transporte coletivo é fundamental, mas primeiramente devemos nos perguntar que tipo de segurança é interessante para os usuários do transporte e que tipo de segurança é interessante para os gestores do transporte. Estamos falando de assegurar quem, ou o quê?

Todo ano em Goiânia vemos notícias que estão diretamente relacionadas a problemas de segurança dos usuários do transporte: Em maio de 2014 uma criança de 2 anos morreu ao cair de uma plataforma do Eixo Anhanguera. Em maio deste ano uma idosa foi atropelada por um ônibus (e teve a sua perna amputada) ao descer e se desequilibrar deste veículo lotado no terminal do Dergo. Na época a família culpabilizou as empresas do transporte pelo descaso com os usuários e também com os motoristas que trabalham em condições precárias. Nada foi feito. Reportagens sobre o caso entrevistaram outros passageiros: “Outros usuários do transporte coletivo reclamam da insegurança na hora do embarque e desembarque devido à superlotação dos ônibus e desorganização das filas. ‘É muito difícil, é muita falta de respeito com o usuário. É fora da medida’, reclama o vigilante Ivan Antunes.” Aqui.

Outro problema de insegurança que atinge mais diretamente as mulheres é a superlotação nos ônibus: o assédio sexual é uma realidade comum às mulheres quando estes estão superlotados.Veja aqui. Também podemos apontar os inúmeros assaltos que ocorrem em pontos de ônibus que não são iluminados e ônibus que demoram excessivamente, principalmente à noite. Veja aqui.

Em uma breve análise podemos, diante de tantos casos cotidianos, apontar problemas concretos relativos à segurança do transporte coletivo para os usuários e identificar as suas origens: dificuldades referentes ao trabalho dos motoristas que tem horários apertados para cumprir e operam em condições precarizadas, superlotação dos ônibus que rodam em menor quantidade (quanto mais lotado, maior é o lucro) e falta de iluminação e demora dos ônibus à noite (deixando as pessoas que necessitam deste tipo de transporte em situações de risco). Uma gestão do transporte que se preocupasse de fato com a segurança dos usuários deveria necessariamente resolver imediatamente estes problemas. Mas o empreendimento realizado em parceria com a Secretaria de Segurança Pública visa assegurar o quê?

O descaso com a população que utiliza o sistema de transportes da região metropolitana gera na cidade uma série de mobilizações tanto contra o anuais aumentos da tarifa quanto contra as condições precárias, a demora e a superlotação no transporte. Em maio de 2013 as empresas foram obrigadas a recuar no aumento de 2,70 para 3,00 após intensas mobilizações da Frente de Lutas Go. No começo do ano de 2014, alguns meses antes da implantação deste sistema de vigilância tivemos uma série de manifestações espontâneas em terminais realizadas por passageiros revoltados com as condições de um transporte coletivo caro e desgastante Veja aqui: Verão quente no transporte coletivo em Goiânia.

O modo como todas estas mobilizações foram tratadas pelos empresários teve o auxílio do aparato repressivo da polícia militar que esteve presente a fim de conter os manifestantes, contou mais tarde também com o auxílio da polícia civil ao prender três estudantes na operação que ficou conhecida como “2,80”. É claro para nós que este empreendimento dos empresários em conjunto com o poder público decorre desta orientação de segurança: assegurar que as condições do transporte coletivo mantenham-se como estão, assegurando deste modo o lucro dos empresários, sem que seja permitido rebelar-se contra a atual gestão. Um sistema de segurança que funciona dentro do Comando de Operações da Polícia Militar com imagens sendo transmitidas em tempo real inibe, vigia, identifica e controla todo o tipo de mobilização de usuários. Não por acaso empresários do transporte de outras cidades do Brasil e diversos países tem visitado a Central de Segurança dos Transportes em Goiânia:  Natal, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rmtc recebe visita de 16 países. 

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