“Das ruas para as urnas”: nossa opinião sobre o oportunismo eleitoral à esquerda


10520548_249910758466258_9221768180162351704_nAs Jornadas de Junho de 2013 colocaram em evidência a necessidade de repensar, debater e reorganizar o transporte público nos principais centros urbanos do Brasil, de modo que, desde então, a questão do transporte público vem aparecendo com frequência na grande imprensa. É natural, portanto, que um ano depois, às vésperas das eleições de Outubro deste ano, o tema ganhe espaço privilegiado no debate político e nos programas eleitorais dos principais candidatos. Contudo, a tentativa de se aproveitar do impacto midiático causado pelas manifestações populares do ano passado e das bandeiras aí levantadas, com o objetivo de canalizar a luta popular para dentro do Estado, não tem nada de natural, sendo, pelo contrário, resultado de uma vontade política deliberada.

Só para se ter uma ideia, a questão do transporte público tem sido destacada nos programas eleitorais de praticamente todos os candidatos à Presidência da República, com ênfase para os candidatos Eduardo Jorge (PV), Dilma Rousseff (PT), Luciana Genro (PSOL), Mauro Iasi (PCB) e Zé Maria (PSTU). Em Goiás, essa questão tem sido destacada por candidatos ao Governo do Estado, como Professor Wesley (PSOL) e Marta Jane (PCB). Além disso, a mesma questão tem sido levantada por candidatos a cadeiras parlamentares, como Déborah Evellyn (PCdoB), Pedro Guilherme (PSOL) e Tatiana Lemos (PCdoB). E há ainda muitos outros candidatos.

pedro guilhermeÉ possível identificar, nesse sentido, certas tendências: em primeiro lugar, uma tendência dos partidos de esquerda de “correr atrás do prejuízo”, visto que não foram eles os protagonistas e os principais organizadores das grandes manifestações de 2013, dando uma maior ênfase à pauta do transporte público nos programas eleitorais e afirmando que Junho de 2013 mostrou a necessidade de mudanças, de uma “nova política”, de “um parlamento identificado com as aspirações da sociedade”. Esses partidos pretendem se apresentar agora ou como quem vai supostamente resolver por dentro do Estado os problemas do transporte público, inclusive o problema da tarifa – são os casos, por exemplo, dos candidatos Déborah Evellyn (PCdoB), Flávio Batista (PT) e Pedro Guilherme (PSOL) –, ou como quem supostamente já começou a fazê-lo – caso, por exemplo, da candidata Tatiana Lemos (PCdoB), que, com vistas à reeleição, tem atribuído a si mesma um suposto mérito individual pela conquista do passe livre estudantil em Goiânia, desmerecendo o esforço de todas as pessoas que lutaram pelo passe livre estudantil nas ruas da cidade, enfrentando a repressão sempre brutal da Polícia Militar. Assim, trata-se ou de ganhar as eleições para supostamente resolver as coisas por dentro do Estado ou de ganhá-las novamente para continuar um trabalho que supostamente já está em curso – e dando resultados.

Seja como for, esses partidos invertem a lógica da luta travada em 2013. Os movimentos sociais autônomos, muitos deles de inspiração libertária, críticos em relação aos governos Lula e Dilma e à cooptação pelo Estado dos movimentos sociais, bem como avessos aos partidos políticos, tanto de direita quanto de esquerda, enfatizaram a necessidade de trazer para as ruas as pautas de interesse da classe trabalhadora, retirando-as das mãos dos políticos profissionais, das burocracias partidárias, dos burocratas do setor público e dos capitalistas e tecnocratas do setor privado, de modo que os próprios usuários do transporte coletivo – trabalhadores e estudantes – pudessem, por si mesmos, repensar, debater e lutar por melhorias no transporte público e, no limite, pela abolição da tarifa do transporte coletivo.

2013 colocou as questões da auto-organização e da ação direta uma vez mais e os partidos de esquerda, tanto os que constituem a base de apoio atual dos governos do PT quanto os que lhes fazem oposição, contribuem para a perda do sentido original – e radical – das Jornadas de Junho: querem substituir a ação direta pela “representação”, a auto-organização pela atuação parlamentar.

tatiana lemosPor outro lado, esses mesmo partidos de esquerda, todos eles estruturados verticalmente, reproduzindo em seu interior a lógica das relações sociais hierárquicas característica do Estado e das empresas capitalistas, contribuem para a perda do efetivo controle de base exercido pelos militantes sobre a condução da luta. A horizontalidade, característica do Movimento Passe Livre e de outros movimentos sociais autônomos, encontra o seu completo oposto na forma de organização burocrática e autoritária dos partidos eleitorais de esquerda. Esses movimentos, bem como as frentes formadas para lutar contra o aumento das tarifas nas principais cidades brasileiras, estiveram sempre sujeitos ao risco de burocratização, é claro. Mas a sua importância residiu e ainda reside no fato de serem ou terem sido eles uma tentativa de organizar uma luta de massas sem recurso ao autoritarismo e à burocratização, promovendo a auto-organização dos lutadores e rompendo com o legado do leninismo, enquanto paradigma de organização revolucionária.

das_ruas_para_as_urnas57971Por razões óbvias, esses partidos sempre criticaram, publicamente ou não, a forma de organização horizontal das lutas, fazendo coro, nesse sentido, com outros movimentos de caráter apartidário e de inspiração marxista-leninista. Além do mais, quando não criticavam a horizontalidade dos movimentos autônomos, tentavam ganhá-los por dentro, tendo em vista o seu aparelhamento ou o recrutamento de novos militantes. Criticaram e continuam a criticar, por exemplo, o anti-estatismo patente nas manifestações de Junho de 2013, pois o seu objetivo é não destruir o Estado mas apoderar-se dele. Os partidos de esquerda que fazem oposição ao governo chegam a fazer duras críticas ao PT, mas não compartilham das críticas dos movimentos autônomos, pois estariam diminuindo as suas chances de instrumentalizá-los, quer para a defesa dos seus próprios programas partidários, quer para a promoção das suas próprias lideranças. As burocracias partidárias não fariam críticas às manifestações de Junho de 2013 se, ao final do processo, elas tivessem sido carregadas “nos braços do povo” para o poder. E, no que se refere especificamente à questão dos programas partidários, esses partidos sempre fizeram coro também, por exemplo, com aqueles movimentos apartidários e de inspiração marxista-leninista já mencionados, dando ênfase à necessidade de inserir a pauta do transporte público num programa revolucionário ou reformista mais amplo, estabelecido a priori por uma vanguarda de pessoas esclarecidas.

Um exemplo flagrante de tentativa de instrumentalização de um movimento autônomo em 2013 foi a declaração à imprensa do atual candidato a deputado estadual pelo PT, Flávio Batista, de que ele seria o “líder” da Frente de Luta pelo Transporte de Goiânia, um movimento autônomo e, desde o início, horizontal. O mesmo candidato promete agora “um transporte sem catraca” e pede a ajuda do eleitor para que ambos possam, “juntos”, promover as mudanças necessárias.

Por fim, a atuação desses candidatos e candidatas contribui apenas para criar novas condições para um fortalecimento do capitalismo, caso eles consigam canalizar toda a luta popular para dentro do Estado capitalista, neutralizando os movimentos autônomos.

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