A mulher e o transporte público


Quando se propõe tarifa zero, pensa-se a partir de uma perspectiva de direito à cidade, enquanto sujeitos que reconstroem cotidianamente a cidade, devemos ter pleno acesso a ela, a seus locais de cultura, lazer, estudos e até para nos organizarmos politicamente necessitamos deste acesso. Este direito à cidade por conta da mercantilização do transporte público só é dado plenamente à quem possui transporte próprio – ainda que tenha suas problemáticas devido a longos engarrafamentos e trânsito lento, que é resultado direto do foco de investimento do poder público no transporte individual, ao invés do transporte público – usuárixs do transporte público, que são sobretudo da classe trabalhadora, têm acesso restrito a cidade, principalmente, pelo deslocar-se estar atrelado ao ter ou não dinheiro.

A catraca é um impedimento ao direito à cidade, uma vez que ela seleciona quem pode ou não pode locomover-se, sendo então a catraca um símbolo que representa tudo aquilo que impede nosso acesso à cidade; a tarifa, a superlotação, os atrasos dos ônibus, as más condições dos mesmos, enfim, tudo que se relaciona com a lógica mercantil do transporte público, constitui-se enquanto catraca a partir do momento que restringe o acesso à cidade. Assim, o acesso à cidade só é possível se temos condições de arcar com a tarifa e mesmo tendo tal dinheiro, o preço desse acesso é o de enfrentar os problemas acima citados, logo, nosso acesso à cidade enfrenta sérias restrições. Contudo, embora, todxs usuárixs sofrem com a péssima qualidade, com a tarifa e outras catracas que limitam nosso direito à cidade, a vivência, demandas e prioridades possuem particularidades, pois não falamos de indivíduos abstratos e sim de indivíduos que pertencem a uma classe, gênero, possuem uma cor, dentre outras questões. De forma que às vezes os mesmos problemas são enfrentados de formas diferentes, tendo consequências distintas.

Analisando a questão do transporte a partir do recorte de gênero, têm-se uma realidade histórica em que o direito a cidade é negado a mulheres, seu papel é reduzido ao âmbito privado, ao lar, enquanto o público, é encarado como lugar legítimo dos homens. Mesmo com os avanços resultante de muita luta, principalmente do movimento feminista, esta questão ainda não se alterou de forma significativa, pois até hoje entende-se que há locais e horários em que as mulheres não devem circular, sendo que caso aconteça algo nestes locais e/ou horários, como um estupro, coloca-se a responsabilidade na mulher, pois ao negar tal restrição que lhe é imposta, a ideia dominante é que a mulher estava procurando este tipo de situação. De forma que:

 “Se aventurar na rua, sob o ponto de vista feminino é, portanto, desobedecer a avisos, se arriscar a enfrentar  situações para as quais foram diversas vezes alertadas, lidar com ameaças, com o medo (mais uma vez o  medo).(…) Entre essas consequências e regras de andar em territórios alheios, que variam em intensidade e  formas,uma das mais comumente enfrentada são as “cantadas”, que compõe o que chamo aqui de assédio de  rua.Este tipo de assédio é peça chave na constante lembrança do não pertencimento feminino à rua de forma que,nos espaços públicos, elas são, ao mesmo tempo, invisibilizadas enquanto sujeito e hipervisibilizadas enquanto objeto “ ¹

Esta objetificação se dá por meio do entendimento que o corpo da mulher quando presente em um espaço público, também se torna público. É dado o direito, principalmente aos homens, de observá-lo, de apalpá-lo e em casos mais extremos, de se apropriar dele, como é o caso do estupro. Isso é tão naturalizado, que recorrentemente, responsabiliza-se a mulher por tais casos, fala-se de suas vestimentas, do horário em que estava na rua, de provocação por parte dela e até admite-se que ela gostou do abuso, essa situação cria uma atmosfera de medo e insegurança, levando a própria mulher a limitar sua mobilidade pela cidade, principalmente à noite. Assim, quando se tem uma frota muito baixa em horários noturnos, pontos distantes uns dos outros, pontos em locais mal iluminados, questões que além de causar incômodo, cansaço, medo de assalto, para a mulher essas situações causam, principalmente, medo de ter seu corpo violado por outrem. Mesmo que nada aconteça, os minutos de caminhada, as horas de espera, constituem-se em momentos de angustia, o medo de estar sendo observada, de alguém a espreita, constitui-se em momentos de grande sofrimento psíquico destas mulheres. O que se agrava quando os ônibus não circulam de madrugada, como é caso em Goiânia, em que os ônibus param a meia noite, exceto o eixo, que passa em certas regiões e passa de uma em uma hora. E se ela perder o último ônibus para ir para casa? Só de pensar nessa possibilidade já se cria uma situação de pânico. Tais situações de intensa angústia causa desestímulo, por vezes, fazendo com que a mulher deixe de sair de casa por conta do medo.

A superlotação, que é uma realidade em todas as cidades, cria uma situação extremamente desconfortante, por conta do calor, do mau-cheiro, da falta de mobilidade, do aperto e ainda cria um agravante para a mulher: o abuso. Infelizmente, é comum os relatos de homens que se aproveitam desta lastimável situação para se esfregarem nas mulheres, para encochá-las e mesmo para apalpar seus corpos². Esta situação é tão banalizada e naturalizada, que em um famoso quadro humorístico da televisão reproduz-se estas situações, afirmando que as mulheres deveriam apreciar tais violências. Mas se a superlotação é um problema, o transporte vazio não é menos intimidador, pois dá maior liberdade de exposição ao agressor, não é incomum os relatos de homens se masturbando ou sentando próximo a mulher para tocá-la, a situação chegou a tal ponto, em que os próprios agressores fizeram um blog para compartilhar suas agressões dentro do transporte público³, e que após denuncias, foi tirado do ar, mas após isto, começou a surgir vários outros blogs com a mesma temática e em algumas cidades também se criou os polêmicos vagões femininos.

Outro entrave nessa intensa luta pelo direito a cidade, é a tarifa. A tarifa é um problema para todxs, pois é o símbolo máximo da mercantilização do transporte, que cria barreira para as pessoas se locomoverem em prol dos lucros milionários das empresas, em que xs usuários não possuem nenhuma forma de controle do transporte público. O ter ou não dinheiro, torna-se imperativo para poder locomover-se. Se este é um problema para todxs, para as mulheres a questão se torna ainda mais problemática, pois, devido a desigualdade de gênero, pelo simples fato de ser mulher, ganha-se um salário menor, nas mesmas condições de trabalho. As mulheres recebem apenas 73,7%. do salário do homem, sendo que 33,3% delas recebem até um salário mínimo, com média mensal de R$ 1.238,00, enquanto a média do salário dos homens é R$ 1.698,00 , 9% das mulheres são empregadas sem remuneração, somente com benefícios, enquanto 4,9% dos homens trabalham em tais condições. As mulheres representam 57, 8% das pessoas desempregadas, o equivalente a 3,5 milhões de mulheres, enquanto das pessoas empregadas 57,¨6% são homens4. Ao estar nesta situação de desigualdade econômica, o dinheiro gasto com a tarifa leva embora uma fatia mais significativa do salário da mulher, impedindo ou ao menos restringindo sua mobilidade, ou seja, seu direito à cidade. Já que significativa parte do salário que ganha vai embora com a tarifa, isto contribui para o impedimento da sua independência financeira, contribuindo para uma situação de dependência de outrem, o que é um problema em si e é agravado em casos de violência doméstica, pois por conta desta dependência financeira a mulher acaba aceitando conviver com tal situação de violência.

Além do salário menor, os afazeres domésticos também são delegados a mulher, quase 90% das mulheres que trabalham fora também cuidam dos afazeres domésticos, contra 46,1% dos homens na mesma situação, sendo que enquanto eles gastam em média 9,2 horas por semana, elas comprometem 20,9 horas semanais, isto é, a carga horária feminina de afazeres domésticos equivale a ter um segundo emprego de meio período sem receber nada5. Tal realidade cria uma situação de desgaste e cansaço mais intenso para a mulher, desta forma as situações já deploráveis do transporte, como o longo tempo de espera, a competição para conseguir entrar nos ônibus, o tempo perdido nas rotas deliberadamente longas para possibilitar a superlotação, são sentidas por boa parte das mulheres como ainda mais desgastante, pois boa parte do seu dia é gasto com trabalho, fora e dentro de casa, logo, o tempo para descanso e o próprio descanso se tornam uma necessidade latente, mas boa parte do tempo em que não está trabalhando, gasta no transporte público e este costuma ser um ambiente hostil, extremamente cansativo, constituindo-se em mais uma atividade extremamente desgastante.

O ter filhx(s), contribui para a utilização maior do transporte público, pois é necessário ir aos locais juntos destxs, ônus que recai sobre a mulher, quando estxs ficam doentes 90% delas cuidam, em oposição a 15% dos pais; 89% delas levam ao médico ou dentista em contraposição a 22% deles; 78% delas vão as reuniões na escola, em oposição a 21% deles6. O que mais uma vez traz os agravantes já citados de enfrentamento de superlotação, de tempo gasto no transporte, do pagamento da tarifa, sendo assim, o transporte público se torna um fardo ainda maior para a mulher, que não somente tem que lidar com esta situação sozinha, como também para acompanhar x(s) filhx(s). Se pensarmos em uma mãe solteira, que tem que bancar tais deslocamentos, seu e dx(s) filhx(s), a situação se torna mais preocupante ainda, pois como exposto, a situação econômica da mulher é mais precária.

Os problemas agravados pelo fato de ser mulher no transporte – e fora dele – são muitos, são de ordem econômica, sexual, de trabalho, dentre outras questões, mas apesar disto, ainda é uma questão pouco trabalhada. Abordamos aqui a questão da mulher, mas também caberia a questão dxs negrxs, deficientes, idosxs, pessoas com problemas mentais e tantas outras vítimas da mercantilização do transporte público. Esperamos que este texto contribua para o debate da relação da mulher e do transporte público, embora sabemos a limitação dele, principalmente por se limitar a análise da mulher cis7, ignorando as questões das mulheres trans.

A luta pelo transporte é também a luta por melhores condições para a mulher, assim como a luta da mulher é também a luta por outra lógica de transporte público. Somente caminhando juntxs, entendendo a totalidade que enfrentamos enquanto usuárixs do transporte, mas sem negar as particularidades deste enfrentamento é que avançaremos efetivamente na luta não só por um modelo de transporte diferente, mas também por outro projeto de sociedade.

Pelo fim da catraca do machismo!
Pelo direito à cidade à todos e todas!

Notas:
¹ Citação presente em prod.midiaindependente.org/pt/blue/2013…
² Um dos exemplos de relato escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012…
³ noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/fo…
4noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-n…
Os dados aqui são diferentes e são relacionados ao mesmo ano revistaepoca.globo.com/Negocios-e-carre…
5delas.ig.com.br/comportamento/homens-ja…
6www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/revi…
7– “Uma pessoa cis é uma pessoa na qual o sexo designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de sexo + gênero designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de gênero, estão “alinhados” ou “deste mesmo lado” – o prefixo cis em latim significa “deste lado” (e não do outro), uma pessoa cis pode ser tanto cissexual e cisgênera mas nem sempre, porém em geral ambos.” transfeminismo.com/2012/07/04/o-que-e-c…

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