Fases da lua e as lutas sociais em Goiânia: breve resposta ao MEPR


Divergências ideológicas sempre existiram na Frente de Luta pelo Transporte (FLT) e não impediram que ela funcionasse, que realizasse atos públicos de sucesso e que tenha conquistado vitórias significativas no primeiro semestre de 2013. Isso se deu em torno de propostas práticas e concretas, e não por afinidade ideológica. O Tarifa Zero Goiânia (TZ) não considera que tais divergências sejam um problema, mas entende que quando elas passam a ser desentendimentos, e quando estes desentendimentos levam uma corrente ideológica à tentativa de deslegitimar um movimento social que luta contra problemas cotidianos, arrisca-se perder o foco das questões sociais concretas e obstruir as lutas populares em nome de uma visão de mundo sectária.

Por isso, embora essa não seja o primeiro ataque do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) contra o TZ, e apesar de não termos respondido às tentativas anteriores de gerar controvérsia, resolvemos agora comentar publicamente algumas das acusações. E faremos isso mesmo depois de o MEPR demonstrar que não tem posição clara sobre como nos atacar, já que em menos de dois dias duas versões de calúnias foram apresentados no site do grupo e em várias páginas do facebook. Isso dificulta até uma resposta.

Parece que o MEPR é incapaz de observar a realidade fora de sua própria doutrina organizativa, a do centralismo, e apesar de todas as acusações é esse o motivo das recentes críticas que divulgaram contra a FLT e contra o TZ. Como se tudo funcionasse segundo seus princípios políticos, eles buscam encontrar o centro onde ele não existe, e lançam agora o argumento de que o TZ (uma organização que preza pela horizontalidade e rotatividade) está centralizando as decisões na FLT. O que se comprova mais uma vez é que o MEPR força os acontecimentos para dentro dos estreitos limites de seu entendimento.

Ou existe outra forma de interpretar a seguinte frase escrita pelo MEPR na avaliação sobre a Frente? (http://www.mepr.org.br/noticias/nacional/781-avaliacao-do-mepr-sobre-a-frente-contra-o-aumento-em-goiania-go.html): “Enfim, não enxergar a contradição entre nação e imperialismo é como olhar para o céu a (sic) noite e não enxergar a lua cheia”. Não queremos debater nação e imperialismo, apenas apontar o fato que há mais de uma fase da lua, além da cheia. Então olhar para o céu e não enxergar a lua cheia é perfeitamente possível, inclusive na maior parte do ciclo lunar. Não existe apenas o centralismo democrático, existe outras formas de organização da luta, inclusive que estimula a participação ativa de todas as pessoas envolvidas nas organizações.

Universo Heliocêntrico de Copérnico
Universo Heliocêntrico de Copérnico

Nos acusam de querer aparelhar a Frente, mas o que ocorre é que fomos nós do TZ, os militantes não ligados a grupos sociais e/ou políticos e o próprio MEPR a continuar participando da Frente. A maior parte abandonou a participação no grupo. Fato que merece sim ser debatido, mas de forma honesta e construtiva, o que estamos disposto a fazer. Mas para que isso aconteça, o debate deve ser realizado nos espaços existentes na Frente de Luta, e não na internet, pois assim pode ficar parecendo que o MEPR é formado por intelectuais pequeno-burgueses que atuam apenas nos debates virtuais. E sabemos que não o são.

Mas percebemos que há uma série de calúnias – que não vamos apontar todas aqui, para não cansar o leitor e militante. Uma delas é a de que o TZ Goiânia segue orientação do MPL-SP. O MPL nacional funciona em uma estrutura de federação, com alguns princípios comuns, mas com plena autonomia de suas organizações locais. Se mantivemos a pauta do transporte é por que somos sim um movimento de luta pelo transporte público. E isto está claro no próprio nome adotado pelo coletivo. Somos a favor de manter a pauta do transporte dentro da Frente, pois após a revogação do aumento os empresários passaram rapidamente ao ataque na tentativa de recuperar seus lucros. Organizaram setores dos trabalhadores do transporte para que estes reivindicassem, frente ao terrorismo do desemprego, também o subsídio estatal, garantindo assim os lucros dos empresários. Uma empresa atrasou o pagamento de seus trabalhadores por duas vezes, o que gerou uma greve de alguns dias, que atingiu milhares de trabalhadores que utilizam o transporte coletivo. Linhas foram cortadas e viagens foram diminuídas, gerando consequências negativas na vida de centenas de milhares de trabalhadores.

É essa a luta “reformista” que pretendemos manter contra os empresários das empresas de transporte coletivo. Por outro lado, a luta dos professores municipais – que nós apoiamos na medida em que podemos – foi iniciada em decorrência do ataque da Prefeitura ao pagamento do transporte, do deslocamento, da mobilidade urbana dos professores. Tais fatos mostram que o transporte como meio de circulação de força de trabalho e de mercadorias é essencial enquanto condição geral para a produção econômica e social capitalista. O transporte é essencial para o funcionamento da cidade capitalista, e por ele também perpassa a luta de classes.

Importante frisar que a pauta do transporte não é a única com a qual concordamos, pois sempre tivemos acordo com a ampliação das lutas, tanto que endossamos o apoio aos professores da UEG, hoje endossamos o apoio aos grevistas trabalhadores da educação e levamos como pauta a luta conjunta com o STIUEG contra a subdelegação do serviço de fornecimento de água.

Mas o que o MEPR parece não perceber é que não somos um grupo do movimento estudantil. Somos um movimento social. E isso serve também para mostrar que há mais de uma fase da lua, além da cheia, nos céus da noite política. Na Frente não havia apenas grupos e pessoas ligadas ao movimento estudantil, e esse fato possivelmente contribuiu para o fortalecimento da luta. E é por isso, por não sermos um movimento exclusivamente estudantil, que o TZ, considerado coletivamente, se quer discutiu em alguma de suas reuniões a participação em disputas eleitorais do movimento estudantil. Fazemos sim a distinção entre luta social e luta meramente política. E a disputa do DCE é uma luta meramente política, apesar de toda a retórica contrária. A própria afirmação do MEPR demonstra tal afirmação: “Notem que se tratava provavelmente da primeira disputa por uma entidade de base do movimento estudantil depois das jornadas de junho, em que o campo independente efetivamente colocava em cheque o controle do governismo sobre o DCE da UFG. Tal disputa tinha uma inegável importância política no contexto atual”. (Frase extraída da versão reformulada do posicionamento do MEPR).

Copérnico iluminado pela luz da lua.
Copérnico iluminado pela luz da lua.

É por isso, possivelmente, que os membros do TZ individualmente se posicionaram contrários a que a Frente apoiasse uma chapa na disputa eleitoral do DCE-UFG. Não negamos a importância política para os estudantes da UFG, que são os únicos a poderem participar de fato do DCE. Como não negamos a legitimidade de pessoas e grupos de participarem da eleição e da disputa pelo poder dentro da entidade estudantil. Apenas não concordamos que um movimento social e uma frente de luta social e popular deixe de lutar contra o ataque de capitalistas, para se dedicar inteiramente a um disputa eleitoral. Subordinar ações de uma luta social e popular ao calendário eleitoral de um entidade estudantil beira à irresponsabilidade. Principalmente em um momento que centenas de milhares de pessoas passam a sofrer ainda mais nos ônibus que estão mais lotados e atrasados, em consequência de ataque patronal feito após uma vitória protagonizada pela Frente de Luta. E tal situação não justifica o boicote publicamente declarado pela principal liderança do MEPR em uma reunião da Frente, de que o grupo não iria permitir que seus militantes e as organizações por eles dirigidas participassem do ato que estava sendo organizado. Ato que contou com a participação de outras organizações como Unidade Vermelha, RECC, e, sobretudo, pessoas não associadas a organizações.

O TZ entende assim que o MEPR não apenas distorce e cria narrativas sobre os eventos mas também desrespeita todos os integrantes da FLT, porque lançam ataques desesperados que transbordam os objetivos de suas críticas (o TZ) e atingem militantes autônomos e outras organizações. É decepcionante uma organização passar desastrosamente a condenar grupos e indivíduos que desenvolvem lutas sociais objetivas e que podem beneficiar estudantes, trabalhadores e a cidade como um todo.

A todos convêm saber que o TZ não é uma organização que impõe a seus membros participação ou ausência em qualquer coisa que seja. Precisamente por isso, embora o TZ componha a FLT, a participação de seus militantes não é feita por convocação de uma autoridade, mas simplesmente pelo engajamento individual. Daí porque o TZ esteve e está presente na FLT, mas não com todos os seus membros, e nunca com a maioria deles – afinal sem centralismo, quem pode impor que todos participem? Mas esse tipo de relação não centralizada é de difícil compreensão quando se entende que o coletivo é superior à soma dos indivíduos. Incapaz de entender que não há ordem para participação, o MEPR tampouco pode entender que o TZ não tem sequer interesse em aparelhar a FLT. Há dois motivos muito simples e bastante evidentes: 1) porque isso é contra os princípios e funcionamento do TZ e 2) porque muitos de seus membros sequer querem se envolver diretamente com a FLT (e, por incrível que possa parecer ao centralismo: o TZ entende que isso deve ser respeitado!).

Mas parece que para o MEPR, que busca ponta até em círculo, deve haver alguém no centro, e, portanto, há sempre uma tentativa de aparelhamento. A disputa por quem-fez-mais, ou quem-fez-menos na Frente demonstra claramente isto. Ao afirmar que “ (…) a função dos militantes do Tarifa Zero foi, em todos os momentos, estudar e escrever notas e artigos, nunca pegaram no pesado realmente. Mesmo assim as acusações continuavam…“ (isto também está na primeira versão publicada) o MEPR expõe que está, ao final, disputando o que o TZ não quer disputar, e o faz através de absurdos proferidos quando todos sabem que pessoas do TZ estiveram desde o início e contribuíram como puderam em todos os atos e tarefas. (Inclusive nos atos de solidariedade aos presos. Solidariedade que para o TZ é imprescindível para qualquer luta).

O pior, quando dizem que as acusações do TZ continuavam, o MEPR novamente erra ao não admitir que TZ nunca acusou o MEPR de nada, tampouco era ponto de pauta em nossas reuniões. Mas como um de nossos militantes criticou a Chapa Zumbi de Palmares em sua rede social (cabe lembrar, o TZ não delibera sobre o que as pessoas que participam deste grupo possam falar/postar/pensar) em uma reunião da Frente a ira se voltou contra todo o coletivo Tarifa Zero. Em relação as reuniões de organização da Frente, isto não foi proposto pelo TZ, mas surgiu após os questionamentos (alguns deles do próprio MEPR) sobre ampliação de pautas de luta pela reestruturação.

Nessa reestruturação tentavam impor centralismo a todo momento, mas sem vitória as reuniões foram ficando exaustivas e por isso foram esvaziadas, e vale lembrar que foi justamente o apoio ao Fora Marconi, que não teve apoio de muitos membros do TZ (não devido ao tema, mas devido à falta de informação e de não ter sido discutido na Frente), que fez com que os temas de organização tivessem que ser adiados para reuniões posteriores. Curioso notar que mesmo sem o TZ dar apoio coletivo ao ato (no TZ isso é possível!) houve membros do TZ que participaram da manifestação e muitos que ficaram em apoio aos presos madrugada a fora.

Avaliamos que todos os grupos e pessoas foram de suma importância para as ações que levaram à formação da Frente de Luta contra o Aumento, e pela vitória alcançada. Como avaliamos que é de suma importância a continuidade da participação dos mesmos grupos e pessoas, como de outros que vierem a ser agregados. Sejam eles grupos já formados e interessados na luta, pessoas que são realmente independentes de quaisquer grupos, ou mesmo os adeptos da teoria e da organização da (do jornal A) Nova Democracia. Todos temos muito o que contribuir para o avançar da luta.

Só podemos perceber o céu noturno em sua totalidade, se levarmos em conta que nele há estrelas, planetas e a lua, esteja ela cheia ou se manifestando em outra de suas quatro fases. Da mesma forma é o céu da política. Só podemos perceber sua totalidade se levarmos em conta todos os grupos e pessoas que se dispõem para construir uma luta. E isso é necessário se quisermos realmente encontrar uma unidade contra nossos inimigos de classe.

Copérnico estudando os vários astros do universo
Copérnico estudando os vários astros do universo

Tarifa Zero Goiânia

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Um comentário sobre “Fases da lua e as lutas sociais em Goiânia: breve resposta ao MEPR

  1. Muito bom o texto resposta. Dá pra analisá-lo perfeitmente em relação à outros movimentos com atitudes similares. Niguém é inocente. Estrela sim, já o estrelismo tenta apagar outras iguais… ¬¬

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