Posicionamento do TarifaZero Goiânia sobre a greve dos motoristas da REUNIDAS


Durante a madrugada desta terça-feira, os motoristas de ônibus da empresa Reunidas decidiram pela continuidade da paralisação iniciada na manhã de segunda-feira, dia 09/09.

A imprensa goianiense já havia noticiado que “muitos dos trabalhadores goianienses que usam o transporte coletivo estão vivendo um caos para chegar ao serviço nesta segunda-feira” (aqui: www.portal730.com.br/cidades/motoristas-da-reunidas-entram-em-greve-por-falta-de-pagamento). Essa situação não se modificou desde então.

Contudo, além de verificar as dificuldades pelas quais vêm passando os usuários do transporte coletivo em Goiânia, desde o início da paralisação, é preciso também indagar o porquê da paralisação e começar a refletir sobre as dificuldades enfrentadas cotidianamente pelos trabalhadores do transporte coletivo. Ônibus lotados, pressão pelo cumprimento dos horários das viagens e trânsito congestionado são situações já conhecidas pelos motoristas.

O que os motivou a paralisar foi, além dos problemas cotidianos, o fato de a empresa Reunidas atrasar o pagamento de seus salários nos últimos dois meses. A situação se tornou tão intolerável que os motoristas decidiram iniciar a paralisação por conta própria, num verdadeiro ato de autonomia, surpreendendo até mesmo o presidente do Sindicoletivo, Carlos Alberto Luís dos Santos (conferir o link da reportagem acima).

Segundo um dos motoristas paralisados: “mês passado, no dia do pagamento, recebemos apenas 50% do salário. Quando questionamos a empresa, ela alegou dificuldades financeiras e que iria pagar o resto logo mais. Nós resolvemos ser compreensivos e esperar a outra parcela, mas avisamos que no próximo mês isso não podia se repetir. Uns dez dias depois, recebemos a outra metade do salário e tudo bem. Daí chegou o dia do pagamento de setembro, que foi sexta-feira. Pra nossa surpresa, recebemos apenas 45% do salário. Daí decidimos paralisar e estamos aqui de braços cruzados. Nós temos obrigações pra cumprir, é uma humilhação, as contas não vem em parcelas no mês, vem inteiras, e nosso salário parcelado. Então viemos aqui e só vamos voltar ao trabalho assim que o resto do nosso salário cair na conta. Enquanto não cair, estamos de braço cruzado por tempo indeterminado”.

Pelas contas de outro motorista entrevistado, são 86 linhas afetadas, 6 terminais e 145 ônibus parados só na garagem da Reunidas, além de cerca de 100 mil passageiros.

Os motoristas também denunciam que o plano de saúde Unimed foi cortado, apesar de continuar sendo debitado no salário dos motoristas. A greve, que não foi organizada por nenhum dos sindicatos que lutam judicialmente por representar a categoria, conta agora com o apoio do Sinditransporte, mas que até o momento não participa de forma alguma da organização da greve.

Para um dos motoristas entrevistados, a greve é uma questão que não interessa só à empresa afetada, mas a todo o consórcio que administra o sistema de transporte e à cidade, pelo potencial que a luta tem para se propagar. Mas não são apenas os trabalhadores que paralisaram parte do sistema de transporte coletivo. Além dos ônibus da Reunidas, por pelo menos um dia a Rápido Araguaia, outra empresa que administra as mesmas linhas, realizou um lockout (greve patronal) parcial por temer que os usuários cometessem atos de “depredação dos ônibus diante da diminuição no número de veículos”.

Mais uma vez, as empresas do consórcio RMTC se preocupam mais com seu patrimônio e com as finanças das empresas do que com a garantia de oferecimento de um transporte de qualidade na Região Metropolitana de Goiânia. Exploram aos motoristas, através de péssimas condições de trabalho e de atrasos nos salários, e também aos usuários, não prestando adequadamente o serviço e deixando-os esperando horas nos terminais e pontos.

A Reunidas é uma das cinco empresas que detém a concessão do transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia. Todas as cinco empresas passaram a reclamar de prejuízos financeiros desde junho. Nesse mês, as manifestações da Frente de Luta Contra o Aumento da Tarifa, e as demais lutas que tomaram as ruas de diversas cidades, derrubaram o valor da tarifa de R$ 3,00 para R$ 2,70. A partir daí as empresas vêm realizando vários cortes em linhas, na frequência dos ônibus, nos números de viagens e agora no salário e no plano de saúde dos motoristas. Frente à diminuição de seus lucros, as empresas recorrem ao ataque aos trabalhadores e usuários para diminuir os custos do transporte.

Como era de se esperar, as empresas estão alegando que o congelamento da tarifa está lhes colocando numa situação de estrangulamento financeiro, de perda do equilíbrio orçamentário, o que pode ser entendido como uma diminuição dos lucros. Em entrevista à imprensa, o Presidente da CMTC, Ubirajara Abud, disse que “como a tarifa foi congelada, no caso da Reunidas, ao que parece esse problema financeiro foi agravado” (aqui:g1.globo.com/goias/noticia/2013/09/motoristas-de-empresa-de-onibus-permanecem-em-greve-em-goiania.html). Ainda na mesma reportagem, lê-se o seguinte: “em comunicado, a Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) afirma que a crise financeira teve origem na ‘grave crise estrutural do setor, com perda de passageiros, velocidade operacional e competitividade do transporte público, agravada pelo desequilíbrio da redução tarifária e pela implantação não sustentável da Tarifa Temporal (Ganha Tempo)’”.

O vice-presidente do Setransp, Décio Caetano Filho, que também é administrador da Reunidas, afirmou que as empresas terão prejuízo de cerca de 40 milhões em 2013 (aqui: ohoje.hospedagemdesites.ws/homologacao_20052013/cidades/empresas-de-transporte-no-vermelho). A falta de equilíbrio orçamentário é um argumento que tem sido levantado recorrentemente, desde a revogação do aumento da tarifa, e que vai de encontro ao fato de que, até hoje, as empresas de transporte coletivo de Goiânia divulgaram apenas um estudo, feito por empresa por elas contratada, sobre a situação das planilhas de custos e lucros. Os números brutos referentes ao números de passageiros, de viagens, valor arrecadado e custos efetivos do transporte não foram divulgados. E mesmo o estudo foi entregue apenas a algumas instituições, não sendo objeto de divulgação ampla à toda a população.

Além do mais, as empresas estão há décadas explorando o sofrimento dos trabalhadores que trabalham e utilizam o transporte coletivo da capital goiana. E o que se vê não é a diminuição do tamanho das empresas, mas sim sua expansão. O objetivo real dos empresários é conseguir subsídios do Estado para a garantia de seus lucros. Um exemplo pode ser encontrado no mesmo estudo realizado pelo Setransp. Para o subsídio do passe livre estudantil, que abrange cerca de 10% dos usuários, os empresários estão pedindo o valor mensal de R$ 12 milhões, o que corresponderia a um terço do custo mensal do sistema de transporte, avaliado em R$ 36 milhões. É possível perceber com este exemplo a honestidade com que Décio Caetano Filho e os demais empresários tratam o transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia.

Haveria ainda a formação de “um grupo de trabalho com técnicos do estado, prefeituras da Região Metropolitana e da CMTC” para analisar “o orçamento de custos operacionais apresentado pelas empresas. ‘Esse trabalho está sendo avaliado para verificar se está havendo uma defasagem entre a tarifa em vigor e os custos do transporte coletivo’, explica Ubirajara Abud”. Entretanto, o referido “grupo de trabalho” mantém-se fechado entre representantes técnicos das empresas do transporte coletivo e dos governos municipal e estadual, sem que usuários e trabalhadores do sistema tenha acesso aos dados e às decisões. Como ficou comprovado no debate sobre a tarifa, atrás da suposta neutralidade técnica há na verdade decisões políticas e econômicas.

Enquanto isso, os trabalhadores ficam sem seus salários, e o usuários sem os ônibus para transitar pela cidade.

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