Manifestação, mídia e repressão


Manifestantes se concentram para o quarto protesto contra o aumento em Goiânia. Foto: Alex San
Manifestantes se concentram para o quarto protesto contra o aumento da tarifa em Goiânia. Foto: Alex San

Dia 28 de maio, terça-feira, estudantes e trabalhadores se uniram novamente, para uma quarta manifestação. Após várias tentativas de uma comunicação e um acordo com as empresas responsáveis pelo transporte público de Goiânia, depois de três protestos, de uma audiência pública, novamente os manifestantes vão às ruas.

Situação da mídia antes da manifestação do dia 28 de maio

A TV Anhanguera, se aproveitando do clima de revolta da população frente ao aumento da passagem para 3 reais, se aproveitando dos protestos e dos resultados que eles trouxeram, fizeram várias matérias a favor da diminuição da passagem, mostrando cálculos, mostrando a precariedade dos ônibus e terminais, fazendo entrevistas com os usuários, questionando o porquê do aumento, mostrando a cobrança da planilha de subsídio e falando da medida do Governo Federal que reduziu os impostos (PIS/Cofins) para as empresas de transporte coletivo. Uma das últimas matérias, do dia 27 de maio, refere-se à audiência pública que segundo eles foi realizada pelo Procon-GO, não dando referência alguma para a organização da Frente Contra o Aumento que foi quem exigiu que a audiência acontecesse, citando apenas ”estudantes”, que acima de tudo são manifestantes. No último ponto: “Estudantes que estiveram presentes na audiência pública na Assembleia Legislativa prometem mais um protesto para essa terça-feira (28). A manifestação está marcada para acontecer na Praça Universitária, às 17h.”.

Entre esses tantos pontos e tantas matérias foi citada apenas a cobrança para a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC). Para esclarecer, a CMTC “É uma empresa pública que ostenta o papel institucional de braço executivo da CDTC-RMG e que exerce a missão de entidade gestora pública da RMTC, cabendo-lhe, dentre outras atribuições, o gerenciamento, o controle e a fiscalização tanto da operação como da infra-estrutura do serviço”. Ou seja, a CMTC é uma empresa pública que “presta serviços” à Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) e um de seus papeis mais importantes deveria ser o de fiscalizar a atuação das empresas concessionárias. O interesse desse órgão de imprensa era tão somente a cobrança à CMTC e à Prefeitura de Goiânia, então questionamos: por que esse interesse em cobrar de determinados órgãos e não de outros que na verdade fazem realmente sentido? Seria necessário questionar a ação das empresas concessionárias e principalmente a atuação do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Goiânia (SETRANSP), sindicato representativo das empresas que tem como principal função a arrecadação da tarifa por meio da emissão e venda dos bilhetes SitPass.

É evidente o oportunismo desse jornalismo em cima das mobilizações e ações realizadas pela Frente Contra o Aumento, aproveitando para se promoverem com uma verdadeira apropriação da luta, que tenta tirar o caráter popular da situação e assim passar para as próprias mãos a condução das reivindicações dos usuários do transporte coletivo. Quais seriam os interesses da TV Anhanguera (e de sua empresa, a Organização Jaime Câmara) defendendo pautas como a redução da tarifa de ônibus e a abertura das planilhas de custos e lucros das empresas? Em uma de suas matérias jornalísticas, a TV Anhanguera deu voz ao presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) que defendeu a redução da tarifa em nome dos empresários que pagam vale-transporte aos empregados. Em suma, a nossa pergunta é: qual é a intenção da Organização Jaime Câmara, como capitalistas e classe dominante em Goiás, em se apropriar e esterilizar uma luta popular composta por trabalhadores e estudantes?

O cenário muda pós-manifestação do dia 28 de maio

O que já era sabido só foi confirmado. A mídia que até então assumia ao vivo na televisão que estava entregue à causa do povo agora nem sequer fala em diminuição da passagem. O cenário agora é outro, o interesse agora é em encontrar a “gangue” de estudantes e punir os “baderneiros”. Os dados que agora mostram não são mais sobre a passagem, mas sim o quanto de prejuízo os manifestantes deram às empresas do transporte coletivo.  Não se fala em outra coisa a não ser na ação vândala de estudantes, tudo baseado em fontes da própria Polícia Militar, não se importando com a visão do movimento. A TV Anhanguera parou de assumir aquele posicionamento de que está ao lado da população que sofre com o péssimo e caro transporte coletivo da região metropolitana. A mídia em geral, seja Anhanguera ou outros canais, quer colocar a população contra os manifestantes, dando espaço para comandantes da PM falarem e justificarem uma perseguição a manifestantes e à criminalização do movimento. Dão espaços para que a ação truculenta da Polícia Militar no dia da manifestação seja legitimada e defendem a perseguição e investigação a supostos manifestantes – o que inclusive pode colocar em risco a vida de muitos. Tudo isso reiterando uma opinião de que os manifestantes agiram de maneira terrorista e que a reação da polícia está correta, custe o que custar.

E para dar outras informações ignoradas pelos órgãos de imprensa, inclusive a TV Anhanguera que tentou ser uma elite política a guiar as reivindicações, elencamos alguns pontos a serem considerados:

Primeiro ponto: A manifestação do dia 28 de maio tinha como objetivo entrar no Terminal da Praça da Bíblia e abrir um discurso em conjunto com a população que estava lá dentro. O que aconteceu foi que a Polícia Militar, com um grande contingente e aparato, já estava cercando todo o terminal, impedindo que os manifestantes entrassem. Cabe lembrar que esta era a quarta manifestação e que já foi tentado de inúmeras formas barrar o aumento. Também que foram tentadas várias vezes uma comunicação com os responsáveis pelo transporte da capital e que a população foi ignorada: o aumento foi decidido em uma reunião de um pequeno grupo de gestores e prefeitos sem a participação de representantes dos usuários do transporte coletivo.

Segundo ponto: Em todas as manifestações, desse ano ou não, a polícia sempre teve o discurso de que estão fazendo a segurança do protesto. Isso, obviamente, não existe! A polícia truculenta do Estado de Goiás sempre esteve de prontidão para criar discórdia e assegurar o lucro dos empresários. Na manifestação desse ano na Praça A, a polícia não cumpriu com a sua palavra de que não impediriam o protesto e violentou manifestantes e passageiros que estavam presentes no terminal. No último protesto, o aparato policial estava mais forte e a repressão foi mais violenta, também sobrando para pessoas de fora da manifestação.

Benedito Braga/O Popular/Estadão Conteúdo

Terceiro ponto: Esse discurso que ultimamente andamos escutando sobre a depredação do “patrimônio público”, sobre o vandalismo e a agressão que se fez contra a polícia é o discurso de quem quer esconder o que na verdade aconteceu e está acontecendo. Afinal, o que acontece no cotidiano da população trabalhadora e estudantil que depende do transporte coletivo? Essas pessoas são todos os dias humilhadas e exploradas pelas empresas que controlam o transporte metropolitano, caracterizada pelos péssimos serviços. Consideramos que a violência não esteve presente só no confronto com a polícia, pois a realidade cotidiana de ônibus e terminais lotados são também formas de violência. Não são só os estudantes e trabalhadores que estavam na manifestação do dia 28 que estão indignados com o transporte de péssima qualidade que temos. O que aconteceu recentemente no terminal Padre Pelágio, de revolta espontânea e depredação de alguns ônibus, é um exemplo da indignação dos usuários. Na última terça-feira o que aconteceu foi uma reação das pessoas, em forma de revolta. A queima de ônibus, a depredação dos mesmos e a defesa contra a polícia foram sinais dessa revolta gerada pelos abusos das empresas sobre os trabalhadores que dependem do transporte coletivo. Chegou um momento em que não adiantaram os clamores ao microfone para que não houvesse enfrentamento nem depredação, e então se iniciou o confronto e os danos aos ônibus.

Para além de defender ou repudiar atos de depredação, é importante salientar uma grande inverdade que se espalha como senso comum e beneficia os lucros das empresas. Dizer que o conserto e a reposição dos ônibus vão sair do bolso do usuário não faz sentido. A manutenção de ônibus é responsabilidade das empresas e inclusive têm dinheiro para isso, além de terem carros de reserva em suas garagens. Afirmar, como estão fazendo, que a falta de ônibus em circulação e a superlotação dos veículos é culpa dos ônibus danificados é uma afronta à inteligência das pessoas, afinal é sabido que todos os dias faltam ônibus e todos os dias estão atrasados e superlotados. O que se desenrolou na última manifestação não deve ser vista como uma baderna festiva como querem deixar parecer as opiniões conservadoras, mas sim como uma revolta. Violência que se sofre todos os dias a partir do momento em que se vai para o precário ponto de ônibus ou terminal e se espera por horas o ônibus chegar lotado, sujo e sem segurança. Violência também é o que os motoristas sofrem todos os dias com sua carga de trabalho pesada, com longa e estressante jornada, vulneráveis a danos físicos e mentais.

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Último ponto: Toda pessoa racional deve denunciar a truculência e o abuso de poder que a polícia tem. O que se vê sempre é o uso da autoridade direcionado a atos violentos. Não se justifica uma pronta atuação da Polícia Militar agredindo fisicamente pessoas em seu caminho e colocando em risco a vida de muita gente em volta, e a mentalidade de que é responsabilidade dos manifestantes a irracionalidade policial só legitima as práticas tirânicas e totalitárias que doutrinam a polícia goiana – que diga-se de passagem, está com uma péssima imagem no cenário nacional devido a denúncias de corrupção, abusos de poder e grupos de extermínio.

A polícia tem espaço na televisão para afirmar que toda a operação se deu dentro de limites legais, além de afirmar que dois policiais foram feridos e de desconversar quando se pergunta quantos manifestantes foram feridos. E, claro, não assumem o que já circula pela internet: ferimentos com bala de borracha e cassetetes e pistolas apontadas para adolescentes. Nós sabemos que algumas centenas de manifestantes não são páreos para policiais armados, como o Choque e sua cavalaria, o Tático e os agentes infiltrados do Serviço de Inteligência (P2), por isso denunciamos como irresponsável e exageradamente desproporcional a repressão deflagrada, com claros impulsos de sadismo policial, que afetou também a população que passava pelo local. Terrorismo por terrorismo, a imprensa ignorou a intimidação a cidadãos que por lá passavam e ignorou também o perigo de se dar tiros e jogar bombas de efeito moral em direção a pessoas que estavam no comércio da região, incluindo crianças e idosos.

Repressão policial em ato contra o aumento da passagem em Goiânia. 28 de maio de 2013. Jornal a Nova Democracia
Repressão policial em ato contra o aumento da passagem em Goiânia. 28 de maio de 2013. Jornal a Nova Democracia

Queremos marcar nossa posição de que a imprensa não representa os movimentos sociais e também não está interessada em retratar com fidelidade o que ocorreu. A imprensa, quer seja desejando tomar a condução das lutas populares quer seja denegrindo-as, tem a clara intenção de se manter a ordem que beneficia a classe dominante, a classe de patrões que vivem da exploração dos trabalhadores. A má notícia para eles é que essa intimidação e essas mentiras não escondem a realidade diária do transporte coletivo da cidade. Não vamos aceitar que nos neguem o direito de resposta e não vamos aceitar pagar 3 reais em serviços que parecem piorar a cada dia.

A luta não terminou e se fortalece a cada dia, a cada manifestação e a cada indignação popular frente os abusos. A luta continua e amanhã vai ser maior!

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