He’s got no Sitpass to ride, but he don’t care


Depois de mais de uma semana aguardando autorização, tornamos públicos alguns detalhes de nossa exclusiva conversa com Sir Paul McCartney após sua apresentação. O tão esperado show do beatle, histórico para a cidade de Goiânia, foi envolto desde o seu anúncio pela polêmica de gastos de verbas públicas milionárias pelo governo estadual – um “pão e circo” para a classe média que se diz “esclarecida” que tanto criticava o “pão e circo” dos shows sertanejos para a classe média que dizem ser “menos esclarecida”.

Mas outra conjuntura política e social polêmica fazia sua vez quando da vinda de Paul McCartney à capital goiana: a situação do transporte coletivo. Quatro dias antes do tão esperado show, motoristas do transporte público cruzaram os braços à espera de uma negociação justa com o patronato para que suas reivindicações fossem atendidas e a região metropolitana foi tomada pelo alvoroço de milhares de passageiros que ficaram sem ônibus, tendo que optar por alternativas de transporte – mais caros – ou tendo que optar pela falta aos postos de trabalho ou às salas de aula. (notícia aqui)

A greve dos motoristas foi breve, mas um espectro ainda rondava a região metropolitana de Goiânia: o espectro do aumento da tarifa. A atual tarifa é de R$2,70 e o aumento já é uma certeza, não se sabia direito se para R$3 ou R$3,20. Se todos esperavam já um aumento de tarifa, o que ninguém de fato esperava era um posicionamento de Paul McCartney sobre essa situação, e em uma curta conversa exclusiva logo após o show entendemos que nosso transporte coletivo, do jeito que está, atrapalhou alguns planos e surpresas do eterno beatle.

De início, Sir Paul McCartney já não teve tão boa impressão da cidade em relação aos transportes ao descer do jatinho: “Disseram-me que o [aeroporto] Santa Genoveva era internacional, mas de fato não o é, e eu percebi isso pela falta de estrutura e pelas obras inacabadas”, disse o beatle ainda carregando sobre o ombro seu novo amigo goiano, Harold.

Pior ainda seria a inviabilização de uma intervenção inclusa na turnê “Out There!” tanto em Belo Horizonte quanto em Goiânia, por motivos de problemas estruturais no transporte coletivo. Para demonstrar o carinho aos fãs e sua humildade, mesmo sendo um Sir agraciado com um MBE direto das mãos da rainha, um dos planos de Paul McCartney com sua produção seria a de pegar um transporte coletivo para ir do aeroporto ao hotel, e de lá para o local do show. Explica o beatle: “Em uma de nossas apresentações ao vivo pela BBC de Londres nos anos 1960 fomos perguntados se é cansativo ser um beatle e o que mudou com nossa fama. Eu mesmo respondi que muitas coisas mudam e algo simples, como pegar um ônibus, já não é mais a mesma coisa” (esse trecho encontra-se aqui). E continua: “Por muitos anos pensei nisso e, mesmo sendo um dos homens mais ricos do Reino Unido, decidi desafiar a fama e poder pegar um ônibus um dia. Decidimos [ele e a produção] por utilizar nessa turnê o transporte coletivo das cidades, com a necessária escolta, que seja. É um fator de proximidade do artista com o público e um sinal de respeito aos serviços públicos de onde vamos nos apresentar”.

Em BH, uma grande metrópole brasileira, o plano foi logo desencorajado. Em Goiânia, ninguém havia preparado Sir Paul – ninguém sequer o alertou que dias antes ocorrera uma greve de motoristas – e algumas situações o deixaram furioso. Depois de uma pesquisa rápida, a produção havia chegado a um plano: o grande astro, sua banda e sua equipe iriam ao lado de fora do aeroporto para esperar os ônibus da linha 258 ou 913, que os levariam ao centro da cidade e de lá tomariam outro coletivo ao hotel.

“Não deu! Perdemos um 258 e nos informaram ainda que o próximo viria 40 minutos depois. Quando fomos informados do preço da tarifa, porém, até resolvi esperar. Ora, uma tarifa de R$2,70 só poderia dizer respeito a um ônibus climatizado, com proteção contra raios solares, leitos e serviço de bordo com belas aeromoças goianas servindo iguarias locais. Não foi bem assim. Um cidadão já nos desestimulou ao dizer que os ônibus são lotados, quentes, fedidos, sujos, sem proteção contra raios solares, barulhentos e que ainda são montados sobre chassi de caminhão. Bloody hell! Com esse preço eu não esperava uma coisa assim!”, contou indignado.

E antes que falássemos da linha 913, Sir Paul já adiantou: “E a outra linha [913] é um tal serviço CityBus, com proteção contra raios solares, assentos fofinhos, ar-condicionado, wi-fi, tomada para recarregar celular… Mas é muito elitizado, é mais caro e não condiz com o perfil de nossa atitude de pegar um coletivo popular. Por que inventam um serviço assim, segregado, se todos os ônibus deveriam ter conforto? Além do mais, a frequência desse aí também é de 40 minutos”.

Paul McCartney, porém, não quis ficar ali esperando. Estava atrasado, precisava ajeitar os equipamentos, tomar um belo banho, arrumar-se e reconhecer o palco no Estádio Serra Dourada. Com as coisas do jeito que estavam, estava correndo o risco de ter de perder seu chá das 17 horas, pois estava já há muito ali naquele ponto de ônibus. A impaciência de Sir Paul foi se esgotando, depois de muito tentar segurar sua elegância britânica. Esperar por quase uma hora pelo próximo ônibus não é algo animador, seja para um gentleman seja para todos, ainda mais que esse tempo é suficiente para lotar o ponto e indicar que o próximo veículo estará cheio. O que fez o artista desistir de vez da espera foi uma informação dada por um passageiro que também esperava: “O cidadão então veio e me disse que eu deveria ainda comprar uma espécie de ticket, cuja tarifa é aquela de R$2,70, mas que a população já aguardava um novo aumento, que poderia ir de R$3 a R$3,20. Com tarifa de R$2,70 subindo para mais de R$3, prefiro um carro: é menos luxo e é mais confortável”.

Dito e feito, o beatle perdeu a paciência e ordenou sua produção que providenciasse logo um carro, que com um pouco de demora chegou e embarcou Sir Paul. O músico foi então ao hotel, mas antes não pôde deixar sua elegância e gentileza de lado, despedindo-se das pessoas que ficaram no ponto ainda sem sinal do próximo ônibus.

Sir Paul McCartney despedindo-se das pessoas que conheceu no ponto à espera de um ônibus: "Foi muito bom conhecê-los, mas essa tarifa eu não vou pagar!"
Sir Paul McCartney despedindo-se das pessoas que conheceu no ponto à espera de um ônibus: “Foi realmente um prazer conhecê-los, mas essa tarifa eu não vou pagar!”

Essa situação acarretou em um atraso que seria sentido inclusive na hora do show, que começou 33 minutos depois do previsto. Pior ainda, já pronto no hotel, Sir Paul foi informado de que alguns integrantes da banda e da produção que decidiram por tomar o coletivo chegaram atrasados, sujos e cansados, e que portanto iriam tomar um banho. “Se isso é embaraçoso para nós, imagine só como é para os trabalhadores dessa cidade que dependem desse tipo de serviço todos os dias. É caro, é cansativo e acaba com a paciência e com o dia de qualquer um! Como podem ainda aumentar o preço desse serviço tão ruim?”, lamentou Sir Paul.

Esquentados os ânimos com todo esse atraso, enfim saem todos ao Estádio Serra Dourada para passarem o som antes da apresentação tão esperada que aconteceria às 21 horas. De carro, enfrentando mais um atraso pelo péssimo tráfego da cidade, Sir Paul McCartney entra no estacionamento do estádio e vê uma longa fila de pessoas: “Aquilo realmente me deixou muito feliz. ‘Quanta gente já está aqui para me esperar! Isso é muito bonito!’, disse eu ao motorista. Mas ele me disse que na verdade essa fila era a do embarque solidário do Terminal Isidória e logo me entristeci novamente por conta desse transporte desumano de Goiânia”.

A fila do embarque solidário do Terminal Isidória estava tão longa ao fim da tarde de segunda-feira que chegou ao Serra Dourada e passageiros foram confundidos com fãs à espera do show. Esse terminal, ainda assim, não chega a ser um dos mais cheios e congestionados da metrópole.
A fila do embarque solidário do Terminal Isidória estava tão longa ao fim da tarde de segunda-feira que chegou ao Serra Dourada e passageiros foram confundidos com fãs à espera do show. Esse terminal, ainda assim, não chega a ser um dos mais cheios e congestionados da metrópole.

Cansado do show e já apressando o fim de nossa conversa, pedimos para que Sir Paul McCartney fizesse algumas considerações sobre a cidade e sobre essa questão do transporte que tanto o incomodou: “Certamente a minha recepção foi bem calorosa, pois ao pisar em solo goianiense já senti minhas axilas transpirarem. O fato de não podermos usar o transporte coletivo, como era o plano da turnê, realmente me entristeceu. Não é justo que pessoas paguem tão caro por um serviço tão ruim, aliás, não é justo que paguem alguma tarifa por um serviço que deveria ser público. Como sabem, vivi meus melhores tempos em Liverpool, mas é de Bristol o exemplo que mais me orgulha quanto a um transporte público mais justo [ele se refere a isto]. Deveria se pensar em uma mudança mais profunda em que o transporte público fosse financiado por um fundo de impostos destinados ao transporte”.

Como resposta, dissemos a Sir Paul que em Goiânia já estão a providenciar o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) para o eixo Anhanguera. Com um sorriso descrente, cansado do show e da frustração ao conhecer o transporte da cidade, ele retrucou: “Não adianta, pois com certeza há nisso aí interesses dessas grandes empresas do transporte coletivo. Se esteticamente melhoram o serviço, ou se aumentam um pouco a velocidade média, podem ter certeza que por detrás disso haverá a justificativa para especulação imobiliária, o aumento da tarifa, o aumento da carga de trabalho sobre os motoristas e com certeza o aumento dos lucros das empresas. São medidas pra inglês ver e, sinceramente, como inglês, eu vejo e já sei que não haverá avanço algum. Enquanto o transporte for uma mercadoria, movida pela ganância de lucros, não haverá melhorias. Goiânia pode ter VLT, metrô, ônibus de dois andares ou submarino amarelo, mas se houver ainda a cobrança de tarifa e se o controle sobre o transporte não for popular, passageiros e trabalhadores ainda vão sofrer bastante!”.

Perguntamos então, dessas suas impressões, qual a mensagem final que ele deixa aos que dependem do transporte público da região metropolitana: “Se me perguntarem o que acho de Goiânia, prefiro me referir apenas ao público do show e dizer que a cidade é muito bela, porque se eu me referir à mobilidade urbana e ao transporte coletivo, a imagem da cidade estará queimada. Um transporte público para ser público deve ser financiado com um fundo destinado ao transporte, sem necessidade de se pagar uma tarifa toda vez em que se entra em um ônibus. Aqui, pelo que vi e me disseram, o que reina é uma máfia de empresas, que cobram uma tarifa muito cara e que vai aumentar, e o povo não pode deixar isso acontecer. Se levarem tudo pelo let it be, let it be, essas empresas e o poder público envolvido vão abusar mais e mais. É preciso que esse povo bonito se revolte! O amanhã nunca se sabe, e se deixar a situação como está, vocês vão carregar esse peso por muito tempo…”.

E, muito simpático, finalizando nossa conversa, Sir Paul pede desculpas mas confessa: “Eu e minha equipe estamos felizes pelo show, mas quanto ao transporte dessa cidade e pelo que passamos, não posso esconder que estamos todos grilados, muito grilados!”.

Sir Paul McCartney grilado.
Sir Paul McCartney grilado.

E quanto ao que vai acontecer ainda em Goiânia, com ou sem espetáculo de Paul McCartney, é bom lembrarmos que O aumento vem aí! É hora de sairmos às ruas para barrá-lo!

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