O exemplo de Porto Alegre


A capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, esteve bem evidente nos últimos dias devido às manifestações nas ruas contra o aumento da tarifa de ônibus de R$2,85 para R$3,05. A decisão de aumento pelas empresas e prefeitura, mesmo com a recomendação do TCE (Tribunal de Contas do Estado) para se abaixar a tarifa a R$2,60, gerou revolta e protestos organizados compostos por usuários do transporte coletivo, estudantes em sua maioria. Uma grande manifestação no dia 27 de março em frente a prefeitura chamou a atenção da mídia nacional (ver notícia aqui) e foi marcada pela truculência da tropa de choque da Brigada Militar (Polícia Militar), que, segundo informações oficiais, reagiram assim (ver vídeo aqui e aqui) somente por conta do vandalismo por parte de alguns manifestantes.

No dia 1º de abril, uma nova manifestação ocorreu como já estava combinado, e em resposta à ação violenta da polícia na anterior (ver notícia aqui) e em resposta também à reação de órgãos de imprensa, que não se bastaram a emitir opiniões atacando a luta dos manifestantes, mas também defenderam a posição dos responsáveis pelo aumento arbitrário da tarifa – especialmente o grupo RBS, filiado da Rede Globo (aqui). Ontem, dia 4 de abril, a surpresa: uma liminar foi emitida suspendendo o aumento e voltando a tarifa a R$2,85 (aqui e aqui).

E o que esse exemplo de Porto Alegre tem a nos ensinar?

É bem comum o desânimo e o pessimismo em relação a manifestações populares nas ruas. Mesmo aquela militância de Facebook andou tendo seus abalos. Quando o problema é o transporte coletivo, com suas precariedades e preços altos, a indignação é inevitável e o desejo de revolta é imenso. Porto Alegre com tantos manifestantes nas ruas surpreendeu até mesmo militantes de movimentos sociais, surpreendendo mais ainda pelo resultado obtido de revogação do aumento. Muitas pessoas que se desanimam com protestos costumam afirmar que o povo não tem poder nenhum e que quem exige mesmo são partidos e quem manda mesmo são os engravatados, mas imaginem o que seria dessa tarifa em Porto Alegre se a agitação popular – de maioria autônoma, não representando ou sendo representada por algum partido – não encurralasse os gestores para tomar uma atitude. Se ainda há o tradicionalismo das vias legais e institucionais como nos mostram os artigos sobre a notícia da liminar, podemos ter certeza de que o recuo por parte das empresas não foi por vontade própria, mas pelo medo, pela pressão que os protestos organizados exerceram, tendo grande alcance e não gerando a antipatia que a mídia queria jogar aos manifestantes. Quem anda de ônibus sabe como é a situação, então atitudes do tipo parecem estar cada vez mais bem-vindas.

Charge de Carlos Latuff para Sul Vinte Um - "Vitória nas ruas de Porto Alegre: aumento dos ônibus é cancelado!"
Charge de Carlos Latuff para Sul Vinte Um – “Vitória nas ruas de Porto Alegre: aumento dos ônibus é cancelado!”

No Brasil inteiro costumam aparecer em início de ano notícias de aumentos de passagens e mobilizações populares, que geralmente contam com a repressão policial. Na região metropolitana de Goiânia ainda não houve anúncio oficial neste ano de 2013, mas mal o mês de março se encerrou e já há receios de muitos usuários, que temem um novo aumento. Vamos lembrar que há um ano a tarifa aumentou de R$2,50 para R$2,70. O impacto no bolso ainda dói, pior ainda é saber que nada melhorou em relação às superlotações, ao tempo de espera dos ônibus, às condições dos terminais e à situação trabalhista dos trabalhadores do transporte. O que mudou em termos de mobilidade em Goiânia foram alguns pontos novos e corredores exclusivos em avenidas famosas e uma ciclovia que não exige nenhum conhecimento de urbanista para perceber que é mal projetada; enfim, são mudanças mais estéticas que funcionais, pois o caos na metrópole continua o mesmo de sempre.

Esse aumento do ano passado estimulou a formação de uma frente de luta contra o aumento, cujo primeiro ato começaria na Praça Universitária. Antes mesmo do início, quando ainda estavam chegando manifestantes, uma viatura da PM se aproxima e os dois militares que estavam nela começam um procedimento bastante suspeito, deixando a impressão de que tudo era um teatro armado. A consequência foi uma demonstração de autoritarismo, agravada pela chegada de reforço policial, que rendeu a prisão de três estudantes. Essa notícia estranha da repressão policial está aqui. Isso gerou uma grande desconfiança em relação aos serviços de inteligência e repressão de órgãos que comandam o transporte coletivo em Goiânia, mas não intimidou manifestantes que se organizaram novamente para um protesto uma semana depois no centro da cidade (aqui) e outro posterior (aqui), com abertura das portas traseiras aos gritos de “Hoje é de graça!” que deu a muitos de nós utentes o gostinho de tarifa zero.

O que isso e as últimas de Porto Alegre nos tem a ensinar é sobre a força que tem a união de trabalhadores contra a exploração das empresas de transporte coletivo, com o aval do poder público. Ensinou-nos sobretudo que com empenho e muita gente nas ruas unida por uma causa, pressões podem dar resultados esperados. De um aumento revogado, uma luta dessas também pode reduzir o preço de uma tarifa, mas também podemos ir além, repensando as formas de controle e subsídio do transporte coletivo, imaginando uma organização dessas revoltas nacionais para que o autoritarismo desses patrões seja derrotado em todas as instâncias. Nossa posição é a de não nos limitar com ganhos pontuais, mas seguir com a luta pela tarifa zero.

Aquela sensação de que quanto mais os patrões se organizam, mais desorganizam os trabalhadores, em uma situação assim mostra a sensação de que quanto mais os trabalhadores se unem, mais os patrões se desesperam. E que amanhã seja maior!

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