Experiências de trabalhos de base (I)


Tentamos nestas atividades propiciar um espaço reflexivo para a reinterpretação política do mundoPor Legume Lucas

Original disponível em: http://passapalavra.info/?p=66000

Um dos dilemas da esquerda brasileira atual é o de saber qual é a sua base, como organizá-la, que tipos de trabalhos podemos fazer. A frase “o importante é retomar o trabalho de base” foi tantas vezes repetida que já se encontra esvaziada de grande parte do seu conteúdo político. Longe de pretender estabelecer uma receita ou um guia, pretendo apresentar nestes artigos algumas experiências realizadas dentro do Movimento Passe Livre São Paulo.

* * *

O espaço do cursinho popular é marcado por contradições. Ao mesmo tempo que pretende-se corrigir um défice educacional histórico das classes populares brasileiras, intenciona-se estabelecer uma crítica ao vestibular como método de seleção. Contradição ainda maior é a tensão entre pretender atingir os mais pobres e por isto cobrar baixas mensalidades, e pagar os professores de forma a mantê-los dando aulas. Dar aulas nestes cursinhos torna-se então um projeto de militância política para os professores; porém, para os alunos é uma tentativa de entrar na faculdade. Neste texto relatarei a nossa experiência em dois cursinhos diferentes.

Em abril deste ano fomos convidados pelos professores do Cursinho da Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) a participar do Projeto Arena, um espaço de diálogo dos alunos com os movimentos sociais. A ideia deste projeto é preparar o aluno não apenas para o vestibular mas para a inserção crítica na vida universitária; ao mesmo tempo permite a construção de relações horizontais de diálogo entre professores, alunos e militantes de movimentos sociais. O projeto é considerado prioritário pelo corpo pedagógico do cursinho e por isto tem um espaço regular na grade de aulas, o que permitiu o planejamento de três atividades para discutir os problemas do transporte na cidade de São Paulo e as possibilidades de ação para transformar esta realidade.

Na primeira atividade separamos os alunos em grupos para a leitura e discussão de reportagens que abordavam diversos problemas encontrados no cotidiano dos usuários do transporte coletivo. Os alunos puderam analisar as reportagens relacionando-as tanto com os problemas enfrentados em sua vida cotidiana quanto com as questões estruturais do transporte. Consideramos que assim era possível partir da reflexão dos estudantes tendo como base sua experiência direta para analisar as condições de transporte na cidade. Estas discussões feitas em pequenos grupos foram socializadas para toda a sala, possibilitando a construção de um panorama amplo dos problemas de transporte coletivo em São Paulo e levantando também a necessidade de construir mobilizações dos usuários para transformar estas condições. Foi interessante que neste momento surgiu por parte dos alunos a experiência da população de Florianópolis em 2005, que se mobilizou e barrou o aumento de tarifas.

Para nós não estava em questão impor uma prática política pré-determinada para o engajamento daqueles jovens, mas ao mesmo tempo existia uma demanda – por parte deles e dos professores – de apresentação do Movimento e suas formas de luta. Neste sentido, contamos um pouco sobre as mobilizações de Salvador e Florianópolis, a formação do MPL, as experiências em São Paulo de 2005 a 2010 e, por fim, sobre luta contra o aumento de tarifa em 2011, relatando as ações tomadas ao longo dos meses de mobilização. Socializamos com os alunos a avaliação interna do MPL de que precisávamos sair da prática reativa em relação aos transportes, pois mesmo que conseguíssemos impedir o aumento de tarifa outros viriam, ao mesmo tempo que considerávamos que a força social do movimento em 2011 permitia propor um projeto de lei de Tarifa Zero. Procuramos também deixar claro que este projeto, ou qualquer mudança nos transportes, dependeria da mobilização popular. Embora o tempo de uma aula fosse curto, conseguimos ainda ter um espaço para que os alunos apresentassem suas dúvidas e discordâncias com o movimento.

A terceira atividade foi reservada para uma avaliação das discussões feitas nas duas atividades anteriores e para refletir sobre as possíveis práticas políticas em relação ao transporte. Foi levantada a possibilidade de se mobilizar pela ampliação do Bilhete USP para os estudantes de cursinhos populares e a integração na luta pela Tarifa Zero.

No início do mês de agosto fomos chamados por um antigo apoiador para fazer uma atividade no cursinho popular Salvador Allende, ligado à Rede Emancipa, que funciona aos sábados na escola municipal Derville Alegreti. A atividade se inseriu em uma proposta de debates sobre urbanização e direito à cidade, inspirados nos círculos de cultura preconizados por Paulo Freire como um espaço para relacionar o conhecimento e a política. Dada a periodicidade das aulas no cursinho, tivemos um tempo menor de inserção, com apenas uma aula reservada para a atividade. Isto requereu que tratássemos a discussão de uma maneira mais direta, ainda assim não poderíamos desconsiderar a experiência de vida dos alunos na discussão. Optamos por partir da pergunta “o que você considera fundamental para a vida na cidade?”; conforme os alunos iam elencando suas necessidades, como cultura, educação, saúde, trabalho, moradia, íamos anotando espalhadas pela lousa estas palavras. Perguntamos então como fazíamos para acessar todas aquelas necessidades, levando a reflexão sobre o transporte como algo fundamental para acessar as vantagens possibilitadas pela vida em cidades. O raciocínio seguinte pretendeu problematizar a exclusão gerada pela cobrança de tarifa no transporte coletivo, apresentando como possibilidade de mudança a mobilização popular em torno do projeto Tarifa Zero. Neste momento abrimos espaço para que os alunos questionassem a ideia de Tarifa Zero, explicitando sua viabilidade e as mudanças promovidas na cidade a partir da possibilidade de circular por ela. É curioso observar que, quando criamos esta atividade, há cerca de 6 anos, e a aplicávamos em escolas era comum, nos consideraram malucos por propor isto; na experiência vivenciada em agosto, não apenas não fomos considerados malucos, como parte da defesa da proposta foi encampada pelos próprios alunos.

Encerrada nossa parte da atividade, uma das coordenadoras do cursinho fez um levantamento do tempo e dos gastos dos alunos com transportes para ir ao cursinho, convidando-os para engajarem-se na audiência pública em torno da meia passagem para estudantes de cursinho popular, projeto de um deputado estadual do PSoL. Informou-os, e também a nós, que os outros cursinhos da rede também estavam fazendo os círculos de cultura, inspirados em Paulo Freire, para discutir transporte e cidade. Neste momento, foi interrompida pela indagação de quem seria Paulo Freire. Feita a explicação, retornou para a necessidade de comparecer à audiência com o referido deputado e se mobilizar pela meia passagem, apesar de não discordar da Tarifa Zero defendida por nós.

* * *

Certamente o trabalho em um cursinho não garante para nós a realização de atividades em sequência ou a formação de um núcleo de mobilização como fazemos, ou tentamos fazer, em escolas. Contudo, tentamos nestas atividades propiciar um espaço de discussão crítica, objetivando não apresentar o MPL como o engajamento necessário para a transformação da sociedade, mas permitir um espaço reflexivo para a reinterpretação política do mundo. Como estas pessoas serão participantes das mobilizações sociais em torno do transporte coletivo ou se engajarão em ações pela Tarifa Zero não nos é possível afirmar agora, mas em alguma medida elas compõem conosco uma tentativa de transformação da sociedade.

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