Sobram carros e faltam ônibus


Os números mostram uma situação caótica no trânsito goianiense, onde o número de veículos cresceu vertiginosamente ao lado do crescimento do número de passageiros em cada ônibus. As explicações que focam no individualismo o problema, não dão conta do fato de que as pessoas preferem o transporte individual a utilizar um sistema de transporte público caro, ineficiente e lento. As empresas que gerem o sistema continuam a lucrar alto, apesar de não haver divulgação pública destes dados. Além do individualismo, imprensa e os “técnicos especializados” apontam a falta de obras (corredores exclusivos, VLT etc.) como o principal problema, para alegria e boas projeções de planejamento dos capitalistas da construção civil.

Nós do TarifaZero Goiânia questionamos: é possível mudar esta situação mantendo a gestão nas mãos da RMTC e sem a participação de trabalhadores e usuários do sistema de transporte público?

Pesquisa mostra valorização do transporte individual na Região Metropolitana de Goiânia

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Cristina Cabral

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É cada vez maior o número de carros e motos na capital, segundo o relatório divulgado ontem pelo Observatório das Metrópolis

A proporção entre a população da região metropolitana de Goiânia e o número de veículos particulares (considerando automóveis e motocicletas) é de 1,15, ou seja, é quase como se cada automóvel ou motocicleta transportasse apenas uma pessoa, mesmo que sua capacidade seja entre dois (motos) e cinco (carros). Por outro lado, para que os 1.469 ônibus da Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC) transportassem toda a população da mesma região, a capacidade deveria ser 1.502 pessoas por veículo. Ou seja, sobra espaço nos carros e motos e falta nos ônibus.

Os números são relativos a 2011 e, ao comparar com 2001, revelam o quanto a frota de veículos particulares aumentou neste período. No início da década passada, havia um veículo particular a cada 3,78 habitantes, enquanto que a proporção com relação aos ônibus do transporte coletivo era de 1 para cada grupo de 1.847 pessoas. O fato revela o quanto, nos últimos anos, o transporte particular foi valorizado no trânsito da Região Metropolitana de Goiânia, ao mesmo tempo em que o transporte coletivo foi desprezado pelas autoridades.

Nestes dez anos, a população da região cresceu 30,79%, enquanto a quantidade de ônibus aumentou 60%, a de carros 100,5% e a de motos 228,5%. Somando motos e carros, a frota de veículos particulares teve aumento de 127,95%. Os números explicam por que há tanta gente nos terminais e lutando por espaço nos ônibus, ao mesmo tempo em que há tantos carros brigando por espaço nas ruas, mesmo que estes automóveis estejam, quase sempre, com apenas uma pessoa.

Os dados fazem parte do relatório Crescimento da Frota de Automóveis e Motocicletas nas Metrópoles Brasileiras 2001/2011, divulgado ontem pelo Observatório das Metrópoles. Quanto à frota de ônibus, os números foram extraídos de pesquisas de O POPULAR e da Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo (CMTC). Pelo relatório, a Região Metropolitana de Goiânia é a quarta do Brasil em crescimento da frota de veículos particulares, atrás apenas de Manaus (AM), Belo Horizonte (MG) e Distrito Federal.

Válido lembrar que a frota de ônibus da Região Metropolitana de Goiânia abrange 18 cidades, enquanto a pesquisa do Observatório das Metrópoles percebeu a região com 14 cidades, segundo a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, a frota de ônibus em Goiânia diminuiu a partir de 2010, de 1.488 a 1.469, ao tempo em que os veículos comprados transportavam mais pessoas, como os biarticulados do Eixo Anhanguera (capacidade de 90 passageiros).

Benjamin Jorge dos Santos, engenheiro especialista em trânsito e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), afirma que o aumento da frota na região metropolitana de Goiânia é, com certeza, um problema seriíssimo. “Estamos na contramão do bom senso”, avalia. Para ele, Goiânia necessita de planejamento, já que “a malha viária da cidade não cresce na mesma proporção”.

Este planejamento, segundo Benjamin Jorge, deve priorizar o transporte coletivo ao invés do individual. Em sua opinião, há um atraso no cumprimento Plano Diretor de Goiânia – datado de 2007. O Plano exige a criação de corredores preferenciais para o transporte coletivo, mas, até então, apenas um, na Avenida Universitária/Rua 10, foi criado. “Em Goiânia não se sabe do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) nem mesmo de um projeto para metrô. Talvez, quando houver um projeto para esse transporte alternativo, ele já nem vai servir mais”, avalia o professor.

Diretor de Trânsito da Agência Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (AMT), Miguel Carlos lembra que o planejamento do trânsito não é uma função do órgão, mas da Câmara e da Prefeitura. “É necessário contextualizar que este problema não é só daqui, é do Brasil e de todos os países na mesma situação que o nosso, em que a população está deslumbrada em ter um carro.”

Carlos afirma que nenhuma cidade terá boa mobilidade urbana enquanto for valorizada a compra do automóvel particular. “Aqui, andar de ônibus é pejorativo, é como se fosse a comprovação de baixo status social. Além disso, comprar um carro ou uma moto fica cada vez mais fácil.”

Vandré Abreu 03 de outubro de 2012 (quarta-feira), de O Popular.

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