Da Revolta do Buzu aos dias atuais


A mudança do panorama econômico do país afeta substancialmente a análise da situação do transporte público local. Por Robson

Mais um aumento no valor da passagem de ônibus bate à porta em Salvador, em momentos como este, ouve-se muitos comentários, burburinhos de revoltas e manifestações, etc. Após quase 9 anos da chamada Revolta do Buzú, ou melhor, após o fechamento de um ciclo na gestão municipal, da saída do então prefeito de Salvador, Antônio Imbassahy, aos últimos dias da gestão do atual prefeito João Henrique Carneiro, muita coisa mudou na cidade. O trânsito ficou insuportável, a qualidade da viagem de quem depende do transporte público piorou e muito, sem contar o agravamento da degradação da infraestrutura ligada ao transporte (estações de ônibus em completo estado de abandono, pontos de ônibus mal conservados, etc). Mudou também o panorama econômico do país, este último afeta substancialmente a análise da situação do transporte público local, uma vez que a razão deste existir é suprir a necessidade da economia capitalista de deslocar a força produtiva até o seu local de trabalho, consequentemente, um novo impulso e dinamização na economia capitalista corresponde a mudanças no transporte urbano como um todo. Para mais detalhes sobre o transporte público na economia capitalista, sugiro a leitura do texto: Notas sobre o transporte coletivo no sistema capitalista (clicando aqui)

Entramos em uma nova fase de crescimento econômico quando muitos não esperavam, indo na contramão da tendência mundial. Não irei me ater na solidez desta tendência, mas é fato que, da primeira revolta por causa do aumento da passagem em Salvador aos dias atuais, houve um reaquecimento da economia e um relativo aumento do poder aquisitivo dos setores médios. Soma-se a isso a estratégia do governo de incentivar o consumo interno como medida de evitar a recessão, e faz isso baixando as taxas de juros para o consumo e até mesmo reduzindo, ou cortando completamente, a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

Aqui entra a questão importante, nunca foi tão mais vantajoso optar pelo transporte individual, os preços são relativamente acessíveis a uma boa parcela da classe média, as condições são tentadoras, os incentivos do governo praticamente empurram as pessoas para os pátios das concessionárias. Contas simples demonstram que, ao considerarmos apenas o consumo de combustível de um automóvel mais econômico, já é mais vantajoso fazer grandes deslocamentos dentro da cidade dando adeus ao transporte coletivo. Vejamos, segundo divulgação do INMETRO [1], o carro popular mais econômico é o Uno Mille 1.0, que faz 12,7 km por litro de gasolina – alguns dizem que faz até mais –, o site www.precodoscombustiveis.com.br nos informa que o preço da gasolina mais barata em Salvador está em R$2,29. Chegamos então à conclusão de que com o mesmo novo valor da passagem anunciado (R$2,80) é possível fazer o deslocamento de 15,5 km a bordo de um Uno Mille 1.0, isso é superior ao deslocamento de alguns bairros distantes de Salvador até o centro da cidade, onde temos os seguintes números [2] de alguns bairros até a estação da Lapa, destino de muitas e muitos trabalhadores todos os dias: Beiru/Tancredo Neves (11,2 km); Mata Escura (11,4 km); Plataforma (13,5 km); Pirajá (13,5 km); Fazenda Grande do Retiro (7,8 km); Sussuarana (13,6 km); CAB (15,4 km); Pau da Lima (15,2 km). Observe que estas contas não levam em consideração que, com o mesmo deslocamento e mesmo valor, é possível levar até quatro pessoas dentro do veículo, se apertar (como já estamos acostumados nos ônibus), até cinco. Pensando desta forma, não há nem o que dizer em relação à diferença de valor se essas pessoas resolvessem ir de ônibus. Outra análise faz-se importante, estamos considerando apenas os maiores deslocamentos, quantas vezes somos obrigados a tomar um ônibus para descer no máximo 4 ou 5 pontos depois; ainda assim, o valor da passagem é o mesmo. E os gastos extras ao longo do mês que somos obrigados a fazer, como o do taxi no dia de fazer feira do mês, ou quando no fim de semana estendemos a noite um pouco mais e não encontramos mais ônibus para voltar pra casa.

Enfim, me parece razoável supor que já é vantajoso optar pelo meio de transporte individual até mesmo para aqueles que moram em bairros mais distantes que os anteriormente citados, como para quem mora em Cajazeiras, Valéria, São Cristóvão, Itapuã, etc. Mas não estou aqui para fazer lobby a favor da indústria automobilística, a pergunta que faço é se a cidade tem condições de arcar com um modelo de transporte que privilegia a cadeia produtiva de automóveis e empurra as pessoas para o transporte individual, pergunto se é este o modelo de desenvolvimento que devemos apostar, mais, o governo estaria preocupado com o possível endividamento dos brasileiros que financiam os automóveis para fugir do terrível transporte de massa urbano? Eis alguns questionamentos de quem viveu e amadureceu a discussão sobre o transporte de Salvador, da revolta do buzú até os dias atuais.

[1] Na Medida – fev 2012 nº 433 (clique aqui para acessar)
[2] Valores obtidos clicando aqui.

Fonte: http://passapalavra.info/?p=60097

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