A arte de manutenção da barbárie: a filosofia da rua


Por Alexandre Costa [*] – Especial para O POPULAR 20 de abril de 2012 (sexta-feira)

O motoboy Jackson Five – hilária personagem do comediante Marco Luque – define assim os “lactobacilos vivos” da vida em trânsito das grandes cidades: “Quero dizer que essa megalópoles agora vai ser dominada por nóis. Vocêis quiria se livrá de nóis, né, mas num vão! Nóis viemu pra ficá, maluco, nóis si plorifera.”

Está claro que o humor cáustico de Luque reside, em primeiro lugar, em um preconceito social, expresso também pela paródia da variedade linguística dos “manos motorizados”. Mas não sejamos apressados em subestimar as possibilidades de sentido de enunciados tão polissêmicos como esse: a graça também se apresenta no medo daqueles que não se identificam com a personagem. Os motoboys são uma hipérbole ambulante da decomposição do transporte público em carros e motocicletas. Não são menos heroicos que os mirmidões de Aquiles só porque já circulem dentro de Troia. Lactobacilos vivos…

As diferentes espécies de motos que estão cada vez mais numerosas nas ruas comportam-se de acordo com padrões que não foram inventados por elas. Outros motoristas, a rigor, criaram a “rua privada”. Nesse espaço público, que é de todos e não é de ninguém, como diria o antropólogo Roberto DaMatta, vale a lei do mais forte e do mais esperto, sejam caminhões, camionetes, carros ou mesmo, é claro, motos. DaMatta leva a dialética da Casa Grande & Senzala ao cúmulo, a refrata, mas não erra.

O dilema de qualquer condutor, seja qual for seu veículo, não deixa de ecoar a figura do “homem cordial” ou a dicotomia entre aventureiros que vão em busca do butim e colonizadores que civilizam a natureza. Modernidade e barbárie não se resolvem sem multiplicar-se em muitos outros pares no entremeio da razão instrumental e da vontade de potência, não no Brasil. Não sabemos, mas “sentimos” que outras respostas fáceis também não servem. E há muitas de fato, e fáceis. Não fazemos, simplesmente, não fazemos.

Dado o tema, é possível buscar na obra Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig, um ponto de encontro entre o senso comum do cotidiano e uma reflexão mais racional e ainda narrativa. Trata-se da história de um pai que viaja de motocicleta por estradas vicinais dos Estados Unidos com seu filho. No meio do enredo, muita filosofia, no final, a tragédia do imponderável. Mistura semelhante à d’O Mundo de Sofia, do norueguês Jostein Gaarder, com a diferença que se possa encontrar entre o peso existencial das alegorias das duas narrativas. Sofia recebe cartas do exterior; pai e filho exploram as rodovias interioranas. Descobrir a irrealidade da vida ou a realidade da morte. Aí temos duas respostas “fáceis” à sensação do imponderável.

Em nosso dia a dia, no entanto, têm faltado tanto o humor de Luque quanto a “parafilosofia” de Pirsig e Gaarder. Não há graça na contabilidade do número de mortes no trânsito, nem “plorifera” qualquer reflexão da nossa tragédia cotidiana. É um melodrama que banaliza agressões, violências e impunidades. Não conhecer a solução é uma coisa, deixar de “sentir” já é cinismo. Seria como saltar direto para o núcleo niilista dos “pós-modernismos”, entregando nosso (des)equilíbrio fenomenológico em troca do álibi do esvaziamento de uma razão quase aplicada.

Os carros avançam o sinal vermelho. As camionetes avançam sobre os carros. As motocicletas “costuram” as ruas. Os pedestres não usam as faixas de segurança. Não há faixas. E os ônibus são grandes por fora e pequenos por dentro…

O conteúdo filosófico e o humor referidos antes são duvidosos, tudo bem. Mas há neles uma ponderação muito básica e, no mínimo, uma aporia: exterior e interior são faces de uma dialética constitutiva. Somos nas ruas os que somos por dentro. Carros importados e dentes brancos alinhados nem sempre têm uma contrapartida interna semelhante, do mesmo modo que escolher o “risco de vida” não se reduz a aceitar o “risco de morte”.

Motocicletas furiosas e “onibussauros” são inimigos. Representam a explosão da disparidade, da inconsciência, do imponderável: seja a dos que estão enlatados e espremidos, seja a dos que estão atrasados e expostos. A filosofia da rua, entretanto, esconde-se, distraída e amena, por detrás do ar-condicionado opaco de consciências de insulfilme.

[*] Alexandre Costa é doutor em linguística pela Unicamp e professor da Faculdade de Letras da UFG

Fonte: http://www.opopular.com.br/cmlink/o-popular/editorias/magazine/a-arte-de-manuten%C3%A7%C3%A3o-da-barb%C3%A1rie-a-filosofia-da-rua-1.143496

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