Perspectivas para a melhoria da qualidade do transporte


por Chico Whitaker
(publicado em Novembro de 1990, na série de seu gabinete, intitulada “Procurando Entender”)

A proposta de tarifa zero não se restringe somente à cobrança dos custos do transporte coletivo, a objetivos de redistribuição da renda e a garantia do direito de ir e vir. Ela também abre perspectivas diferentes na busca da melhoria da qualidade dos serviços. É possível até mesmo dizer que, quanto ao financiamento, a tarifa zero somente aprofunda um método de cobrança indireta que já vem sendo utilizado. Mas, quanto às possibilidades de melhoria desse transporte, ela inova radicalmente.

Essas possibilidades se abrem a partir da nova maneira com que o usuário pode passar a utilizar o serviço de ônibus.

Até agora o usuário procura mudar o menos possível de ônibus porque – a não ser que se trate de linhas “integradas” – a cada mudança ele tem que pagar de novo a tarifa, Ou seja, para o usuário de baixa renda é impensável ter que usar mais do que dois ônibus para ir de casa ao trabalho e vice-versa. Cada mudança doe fundo no seu bolso.

Com a tarifa zero ele se libera dessa limitação. Tanto faz se pega um, dois ou dez ônibus para ir de um ponto a outro da cidade. Ele certamente preferirá, no seu trajeto quotidiano de ida e volta do trabalho, mudar o menos possível de ônibus. Mas isto decorrerá da existência ou não de linhas diretas e não do custo que representará mudar de ônibus. Esse custo, para ele, será sempre zero.

Assim, se por exemplo o usuário está numa avenida pela qual passem muitas linhas de ônibus ele pode pegar o primeiro ônibus que passar, seja qual for a linha. Descerá no fim da avenida ou no meio dela, escolhendo o ponto mais próximo do trajeto seguinte que pretenda fazer. Assim, ele compõe seu próprio percurso utilizando diferentes linhas.

Repercussões no modo de planejar as linhas

A partir dessa mudança no comportamento dos usuários, passa a ser possível planejar as linhas pensando de forma totalmente diferente do que se faz atualmente.

Não se trata mais de criar o máximo possível de linhas que levem os moradores de um bairro até algum centro ou ao centro principal da cidade. Isto, no sistema atual, é fundamental, não somente para assegurar maior comodidade ao usuário, mas para que ele não tenha de trocar de ônibus, o que lhe encareceria o transporte.

Com a tarifa zero, pode-se racionalizar itinerários pensando-se também em linhas que se liguem umas às outras. Por exemplo, percursos curtos de ida e volta dentro de bairros, conectando as suas diversas partes a uma avenida tronco. Ou trajetos que façam idas e voltas ao longo de avenidas, como se nessas avenidas corressem somente linhas tronco. Pode-se pensar também em ônibus “expressos” que liguem grandes distâncias sem parar, combinando-os com ônibus “paradores”.

Ou seja, desaparece o problema das linhas serem ou não serem “rentáveis”, a partir do cálculo do chamado “índice – passageiro – quilômetro ” (índice conhecido como IPK). Todas as linhas podem ser definidas a partir da sua utilização ótima, em termos de quantidade de ônibus, frequências das passagens e número máximo de passageiros por ônibus.

Por outro lado, deixam de ser necessários os grandes terminais, exigidos atualmente, para garantir a mudança de ônibus sem novo pagamento da tarifa. Qualquer praça ou espaço mais amplo, desde que devidamente equipado com abrigos, pode se constituir em área de conexão de linhas, multiplicando-se os pontos de interligação de percursos. Isto representa uma grande economia nos investimentos.

Sem filas e com mais lugares sentados

Com essas mudanças no modo de se utilizar e planejar as linhas, combinadas com o aumento da frota e outras medidas de melhoria da operação, rapidamente melhorará também a qualidade dos serviços.

Por efeito do conjunto de modificações no sistema, se reduzirão, ou mesmo terminarão, as filas e as demoradas esperas nos pontos de ônibus A não ser que prefira a espera, para não se arriscar a um eventual desconforto na troca de ônibus, o usuário não mais depende de que passe a “sua” linha, mas sim o primeiro ônibus que vier na direção em que precisa se locomover. Os ônibus passam a funcionar como se fossem vagões de metrô. Se chegam muito cheios, pode-se esperar o seguinte. Qualquer ônibus que apareça já serve.

Dentro dos ônibus, por sua vez, especialmente nas horas de menor movimento, aumentará a renovação dos passageiros, que já não terão que seguir numa só linha do centro até o bairro ou vice-versa. Haverá, com isso, maiores possibilidades de se viajar sentado.

Com a utilização de ônibus maiores (articulados ou tipo padron) nas linhas tronco, e um substancial aumento da frota, os efeitos positivos na melhoria da qualidade se farão sentir inclusive nas horas de maior movimento, as chamadas “horas de pico”. Especialmente porque, com a racionalização geral do sistema, em um novo sistema de linhas e itinerários, será possível prever, para o atendimento nessas horas, um número de ônibus que responda a toda a demanda e que permita um aproveitamento ótimo dos veículos. Ou seja, contrariamente ao que ocorre agora, nem muitos passageiros que lotem demasiadamente os ônibus, nem poucos que os deixem trafegar vazios.

Esse é o quarto dos sete textos sobre tarifa zero, apresentados no volume 12 da publicação “Procurando Entender”, do então vereador Chico Whitaker.

Disponível em: http://www.tarifazerosp.net/2011/09/18/perspectivas-para-a-melhoria-da-qualidade-do-transporte/

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